Em agosto, a OpenAI lançou o GPT-5, e o apresentou como o seu “modelo mais inteligente, rápido e útil até agora”, afirmando que interagir com ele era como “conversar com um amigo prestativo com inteligência de nível de doutorado”.

Mas será que é tudo isso mesmo? Em artigo publicado na Fast Company, o jornalista e especialista em inteligência artificial Thomas Smith contou que testou o modelo “mais extensivamente” e percebeu que ele se destaca em muitas tarefas pragmáticas, como escrever código e analisar dados.

Diante disso, ele resolveu avaliar a ferramenta para investir em ações. Para isso, disponibilizou US$ 500 (aproximadamente R$ 2,6 mil) para que ela aplicasse como quisesse. O objetivo era ganhar o máximo possível de dinheiro em seis meses.

“Eu esperava conselhos genéricos sobre investimentos. Em vez disso, as escolhas realmente me surpreenderam”, disse Smith, salientando que seu artigo não deve ser considerado aconselhamento financeiro e tratou-se de um “experimento maluco” e, que inclusive, ele já havia tentado anteriormente com o GPT-3.

Nesta primeira experiência, em 2022, ele pediu ao bot para escolher uma carteira de ações. Ele recomendou empresas como Ralph Lauren e Wynn Resorts, que haviam apresentado bom desempenho naquele ano, e adicionou Microsoft, Apple e Amazon, com base no fato de serem “gigantes da tecnologia”.

Segundo o jornalista, as primeiras escolhas se mostraram sólidas, e a carteira acumulou alta de 82,15% desde então. “Ver que os modelos da OpenAI – mesmo em seus primórdios – conseguiam superar o mercado me deu confiança. Ainda assim, basicamente tudo se valorizou desde 2022; o cenário de investimentos naquela época era muito menos nebuloso do que é hoje, e investir em qualquer ação individual provavelmente renderia um bom dinheiro”, escreveu ele.

E complementou: “Além disso, quase três anos é muito tempo para esperar por ganhos ainda modestos. O modelo teve um bom desempenho, mas nem sequer conseguiu dobrar seu valor nesse período. Eu queria riquezas sobrenaturais, não um alfa moderado. E eu as queria agora”.

Foi com essa mentalidade que ele recorreu ao GPT-5 e lhe pediu que criasse um portfólio de ações “adequado ao mundo dadaísta, repleto de tarifas e sitiado pela IA em que vivemos em 2025”.

“Especificamente, eu disse ao ChatGPT, com o modelo ‘Pensando’ do GPT-5 selecionado, que eu daria US$ 500 para investir da forma que achasse melhor. Eu queria maximizar meus retornos nos próximos seis meses, escolhendo cinco ações do mercado público”, explicou Smith.

Seu prompt foi exato foi o seguinte: “Vou te dar US$ 500 para investir no mercado de ações. Você pode escolher até 5 ações. Faça sua escolha, explique o porquê, e eu as comprarei e veremos como elas se saem”.

O jornalista relatou que achou que o GPT-5 responderia com algo como “Fale com um consultor profissional” ou “Invista a longo prazo em um fundo de índice S&P 500 de baixo custo”.

“Em vez disso, ele passou oito minutos refletindo sobre minha consulta antes de retornar o que chamou de ‘Portfólio Diversificado de Alto Crescimento’. Suas escolhas não foram nada fracas ou genéricas – elas foram inteligentes e altamente agressivas”, detalhou.

O modelo da OpenAI recomendou que ele distribuísse o dinheiro igualmente entre as empresas Palantir, AppLovin, Agios Pharmaceuticals , Hut 8 Corp. e MicroStrategy Inc. Para escolhê-las, compartilhou que havia lido 98 artigos e sites.

Por exemplo, apontou que a Palantir foi “impulsionada por sua plataforma de IA/dados” e estava “ganhando força nos setores comercial e governamental”. Com base no “entusiasmo dos investidores por seu crescimento impulsionado pela IA”, o modelo esperava que as ações continuassem obtendo grandes ganhos.

A tecnologia selecionou o AppLovin pelo mesmo motivo, citando seu “mecanismo de IA proprietário”. E ainda acrescentou: “Analistas observam que, mesmo após fortes ganhos, as ações são negociadas apenas ~8% abaixo dos níveis de pico, sugerindo espaço se o crescimento continuar”.

A Agios foi selecionada porque aguarda uma decisão da Food and Drug Administration (FDA) sobre a expansão do seu principal medicamento, o Pyrukynd, para o tratamento da talassemia. Já a Hut 8 e a MicroStrategy entraram no pacote porque buscavam exposição a criptomoedas.

O modelo concluiu: “No geral, o portfólio visa uma valorização explosiva em vez de estabilidade”. “Basicamente, ele jogou a segurança para o alto e adotou a abordagem de escolher as coisas mais arriscadas e modernas que pôde encontrar (IA, criptomoedas, indústria farmacêutica em estágio inicial) e investir todo o dinheiro nelas”, destacou Smith.

O autor do artigo observou que não pediu ao modelo “apostas seguras ou sensatas”, e sim que ele “assumisse um prazo de investimento absurdamente curto” e “rendesse o máximo de dinheiro possível”.

“Seu portfólio reflete isso perfeitamente. Suas escolhas são opções ousadas, do tipo ‘fique rico ou morra tentando’”, pontuou o jornalista. “Eu basicamente pedi ao modelo para lançar os dados, e ele fez isso esplendidamente. O conselho dele não é exatamente bom, no sentido de que suas escolhas são incrivelmente arriscadas. Mas elas correspondem à minha intenção.”

Ele complementou que isso reflete outra faceta do modelo: o “seguimento de instruções” altamente preciso. “O GPT-5 pode não ser Shakespeare, mas é muito bom em determinar o que seus usuários querem e entregar isso com a maior precisão possível. Também parece ter acertado em grande parte os detalhes de sua resposta (preços das ações, ganhos anteriores, notas do consultor). Isso condiz com a afirmação da OpenAI de que o GPT-5 alucina muito menos do que os modelos anteriores”, avaliou.

Smith seguiu as recomendações da IA e comprou as ações. Cerca de duas semanas depois, elas já haviam subido cerca de 10%. “Esse é o tipo de crescimento rápido inicial que eu buscava. Então, vou encerrar essa experiência com o dinheiro da Lamborghini, ou o portfólio da GPT-5 vai despencar e levar junto o equivalente a uma prestação de carro do meu dinheiro? Investir centenas de dólares em uma pseudointeligência baseada em silício é uma boa ideia ou uma loucura financeira? Pergunte-me em seis meses”, finalizou.

Fonte: Olhar Digital