Adiada pelo nascimento de sua filha, a entrevista com o cardiologista Lucas Xavier finalmente foi ao ar no “Pode Conversar” do dia 24 de outubro, às 19h. Em tom direto e didático, o médico traçou um panorama do avanço da cardiologia no Sertão da Paraíba. Coordenador da Hemodinâmica do Hospital Regional de Patos, ele detalhou como os procedimentos minimamente invasivos encurtaram o tempo de resposta no infarto. E como isso mudou desfechos que antes dependiam só de centros de alta complexidade.

Mineiro de Uberlândia e cidadão patoense há sete anos, Lucas contou que sua trajetória se confunde com a expansão da assistência local. Após graduação no Pará e residência em cardiologia no Hospital Metropolitano, em João Pessoa, integrou o grupo que estruturou a hemodinâmica em Patos. “Abrimos a hemodinâmica e ela vem salvando muitas vidas”, resumiu. O serviço oferece diagnóstico pelo cateterismo e tratamento pela angioplastia no mesmo fluxo.

Ao explicar o “como”, ele repetiu a máxima da especialidade: “Tempo é músculo”. O acesso ao coração é feito por punção na artéria do braço (radial) ou da virilha (femoral), sem corte aberto. Primeiro, o cateterismo identifica a obstrução; em seguida, a angioplastia desobstrui com balão e stent. Quanto antes esse passo a passo acontece, menores as sequelas e a mortalidade.

Já as cirurgias cardíacas de grande porte — revascularização do miocárdio e trocas valvares — seguem referenciadas para o Metropolitano. Nesses casos, a logística faz diferença. “Quando a angioplastia não resolve e há necessidade cirúrgica, acionamos a rede aeromédica; o paciente chega em 30 a 40 minutos a João Pessoa”, disse. O encurtamento do percurso tem impacto direto na chance de sobrevida.

Esse arranjo integra o Projeto Coração Paraibano, que interiorizou hemodinâmicas, padronizou protocolos e articulou ambulâncias e aeronaves. A estratégia inclui uso de trombolíticos em localidades distantes, até o paciente alcançar a hemodinâmica. “Com a rede, a mortalidade por infarto caiu significativamente; o tempo até a terapia definitiva diminuiu”, afirmou. A tecnologia também entrou na conta.

Segundo Lucas, recursos como circulação extracorpórea, ECMO e inteligência artificial apoiam diagnóstico e decisão em cenários complexos. “É segurança e precisão a favor do paciente”, comentou. A combinação de equipe treinada, equipamentos e fluxos bem desenhados sustenta o resultado. E reforça a importância de manter a rede em funcionamento contínuo.

Na parte prática, o médico foi taxativo sobre sinais de alerta: dor no peito em aperto, irradiando para braço esquerdo ou pescoço, com suor frio, exige atendimento imediato. “Diabéticos, idosos e algumas mulheres podem infartar sem dor típica, com falta de ar ou dor ‘no estômago’”, alertou. Em perda súbita de força de um lado do corpo, desmaio sem resposta ou convulsões, o SAMU deve ser acionado. Falta de ar intensa também demanda urgência.

Ele pontuou um equívoco comum nas cefaleias com pressão alta: muitas vezes é a dor que eleva a pressão, não o contrário. Daí a importância do contexto na aferição. “Repouso, pernas descruzadas, sem cigarro, exercício ou alimentação nos minutos prévios”, orientou. E, quando possível, aferição auscultatória por profissional treinado ou aparelhos validados.

Sobre fatores de risco, o sódio apareceu como vilão da hipertensão, com recomendação de redução drástica. Ultraprocessados e molhos ricos em sal merecem atenção redobrada. A ansiedade pode elevar, momentaneamente, pressão e frequência cardíaca, sem caracterizar hipertensão crônica. Cuidar da saúde mental é parte do cuidado cardiovascular.

Perguntado sobre medicamentos, Lucas lembrou que todo fármaco pode ter efeitos adversos, em geral manejáveis. O anlodipino pode causar inchaço nas pernas em pequena parcela de pacientes, algo resolvido com troca da droga. A losartana é segura, desde que se monitore creatinina após início ou ajuste. Já o escitalopram pode causar mal-estar e sonhos vívidos nas primeiras semanas, tendendo a passar com acompanhamento.

No tema marcapasso, foi direto: indicado em bradiarritmias, o dispositivo é implantado sob a pele, com cabos ao coração, e tem bateria média de dez anos. “É uma cirurgia simples que salva vidas”, definiu. A clareza técnica em linguagem acessível pautou toda a conversa. E aproximou conceitos complexos do público.

O especialista também abordou debates atuais. Criticou o cigarro eletrônico como “modinha perigosa”, pelos impactos pulmonares e cardíacos, e desfez o mito do álcool benéfico. “Em qualquer dose, faz mal; pode causar miocardiopatia alcoólica e elevar a pressão”, disse. O recado é de prevenção e vigilância contínua.

A doença de Chagas, ainda que menos frequente com melhorias habitacionais, segue relevante. Pode evoluir para insuficiência cardíaca e megacólon, exigindo diagnóstico e acompanhamento. Patos participa de captações de órgãos quando há doador, integrando a rede estadual. E contribuindo para transplantes realizados no Metropolitano.

Ao final, Lucas sintetizou a proposta do programa e de sua prática clínica: “Informação simples salva vidas”. Dúvidas que parecem pequenas podem mudar desfechos. Para ele, abrir espaço ao esclarecimento é parte do cuidado. E um caminho para um Sertão cada vez mais protegido contra o infarto.