Na última sexta-feira, 21 de novembro, às 19h, o podcast Pode Conversar recebeu um convidado que mudou o tom habitual das conversas: o psiquiatra Dr. Eulâmpio Dantas, conhecido como Lamp, hoje à frente da Cebrapcan, em Patos (PB). Pela primeira vez, o programa abriu espaço para um especialista em psiquiatria falar, sem rodeios, sobre cannabis medicinal, saúde mental, dependência química e os desafios de fazer ciência e cuidado em pleno semiárido nordestino.

Antes de se tornar referência no tema, Eulâmpio trilhou um caminho que passa pela educação, pela vida popular e pela experiência internacional. Ele já foi professor de Química em várias escolas de Patos e trabalhou no Mercado Público, na tradicional Feira da Pedra. Formou-se em Medicina em Cuba e, logo depois, participou de uma missão humanitária no Haiti, atuando em uma unidade de cólera após o terremoto. De volta ao Brasil, fixou-se na região e passou a trabalhar com saúde mental, acumulando a experiência de acompanhar, no consultório e no SUS, pacientes com quadros graves e complexos.

Há cerca de nove a dez anos, o psiquiatra começou a prescrever óleo medicinal de cannabis para pacientes com epilepsia refratária, transtorno do espectro autista, fibromialgia, dor crônica e outras condições. A prática trouxe resultados importantes, mas também escancarou uma barreira social: o acesso. Enquanto famílias de maior renda conseguiam comprar produtos importados ou de grandes indústrias farmacêuticas, com tratamentos chegando a R$ 1.500 ou R$ 2.000 ao mês, boa parte dos pacientes simplesmente ficava à margem dessa possibilidade. Dessa inquietação nasceu a ideia de criar a Cebrapcan, uma associação voltada à pesquisa e produção de cannabis medicinal, com foco na acessibilidade e na justiça social. Para viabilizar a estrutura inicial, o médico cedeu um galpão de sua propriedade em comodato para a instituição, sem receber aluguel ou salário, reforçando a preocupação em manter transparência e evitar conflitos de interesse. Há também uma motivação familiar: um de seus sobrinhos foi um dos primeiros pacientes a utilizar o óleo produzido pela Cebrapcan e, segundo Eulâmpio, teve uma evolução marcante no desenvolvimento cognitivo e na comunicação.

O caminho até a regulamentação, porém, não foi simples. A associação começou a operar sob o risco constante de ser confundida com atividade ilícita, chegou a responder a processo na Justiça Federal e enfrentou o medo de profissionais que receavam se envolver por medo de prisão. Para reduzir esse risco, Eulâmpio fez questão de oficiar as polícias, incluindo a Polícia Federal, explicando formalmente o que era a Cebrapcan, quais eram os objetivos e como se dava a operação. Com o tempo e muita insistência, a associação obteve autorização federal de funcionamento e hoje reúne cerca de 18 pessoas entre profissionais e voluntários, incluindo médico responsável, farmacêutico, agrônomo, biomédico, biólogo, equipe de acolhimento, comunicação, jurídico, administrativo e logística. A Cebrapcan já acompanha mais de mil pacientes em mais de 20 estados brasileiros, tornando-se um polo de cuidado e pesquisa a partir do interior da Paraíba.

Durante o programa, o psiquiatra dedicou boa parte do tempo a explicar, em linguagem simples, o sistema endocanabinoide, um conjunto de receptores e substâncias produzidas pelo próprio corpo humano, como a anandamida e o 2-AG. Esse sistema está envolvido em funções ligadas à dor, ao humor, ao sono, à resposta imunológica e à modulação de crises convulsivas, entre outras. O uso terapêutico da cannabis, segundo ele, não deve ser entendido como uma “droga para sedar”, mas como uma forma de modular esse sistema, ajudando o organismo a recuperar equilíbrio onde há disfunção. No caso da epilepsia refratária, por exemplo, ele explica que muitos pacientes tomam três ou quatro anticonvulsivantes sem conseguir controlar as crises. Cada crise, por sua vez, “mata neurônios” e agride o cérebro. A cannabis, ao atuar como neuromoduladora, ajuda a reduzir a frequência das crises e a proteger o tecido nervoso. Em doenças como fibromialgia, a planta atua tanto na percepção da dor quanto em processos inflamatórios crônicos do cérebro, o que, segundo o médico, explica por que pacientes com fibromialgia quase sempre apresentam, em conjunto, quadros de ansiedade, depressão, distúrbios de sono e irritabilidade.

O tema também se estende ao TEA (transtorno do espectro autista). Eulâmpio destaca que, em muitos casos, o cérebro do autista não tem uma alteração visível em exame de imagem, mas funciona de maneira dessincronizada, com conexões excessivas em algumas áreas e falhas em outras. O óleo de cannabis, em doses planejadas, associado a terapias como fonoaudiologia e acompanhamento psicoeducacional, favorece a organização dessas redes e pode melhorar contato visual, comunicação e comportamento. Ele faz questão, porém, de lembrar que “não é milagre”: pela sua experiência, cerca de um terço dos pacientes tem resposta muito expressiva, outro terço apresenta melhora moderada e um último grupo tem resposta discreta ou nula. Em doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, o raciocínio é semelhante: como a cannabis tem potencial sinaptogênico (estimula novas conexões) e efeitos anti-inflamatórios, ela pode ajudar a criar “caminhos alternativos” para funções que estavam comprometidas, especialmente se o tratamento é iniciado nas fases mais precoces da doença. Na oncologia, a planta entra como suporte: melhora dor, sono, náuseas e apetite, além de contribuir com a modulação imunológica em pacientes em quimioterapia, ainda que os estudos sobre ação direta na célula tumoral ainda sejam considerados incipientes.

A conversa não ficou restrita à cannabis. Provocado pelo apresentador e pelos espectadores que comentavam ao vivo, o psiquiatra abordou de forma crítica o uso de ansiolíticos, antidepressivos, hipnóticos e estimulantes. Sobre os transtornos de ansiedade, ele lembrou que sentir ansiedade em situações de desafio é fisiológico e até protetor. O problema é o modo de vida atual, com excesso de telas, falta de descanso, pouco lazer e privação de sono, que mantém o cérebro em “modo alerta” contínuo e leva à exaustão. Na prática clínica, a primeira linha de tratamento para ansiedade generalizada e outros transtornos ansiosos ainda são os antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como sertralina e escitalopram, além de medicações “duais” como venlafaxina e duloxetina, e outros fármacos como a pregabalina em casos específicos. A cannabis medicinal, nesse contexto, não entra como substituta automática, mas como opção sobretudo para quem não tolera bem os remédios convencionais ou não responde aos tratamentos usuais.

Sobre os benzodiazepínicos – clonazepam, diazepam, alprazolam e afins –, Eulâmpio reforçou que são medicações úteis, mas perigosas quando banalizadas. São indicadas, por exemplo, na abstinência de álcool e outras drogas, em crises agudas de pânico e como apoio em períodos muito críticos, mas sempre com tempo de uso bem delimitado. Segundo ele, esses remédios são “uma maravilha na primeira semana”, quando o paciente volta a dormir e sente alívio, mas justamente por isso geram resistência à retirada e um risco alto de dependência. A crítica mais severa ficou para o Zolpidem, utilizado amplamente como “remédio para dormir”. O psiquiatra mencionou casos de pacientes que tomam dezenas de comprimidos por dia e relatou episódios de comportamentos complexos sem lembrança posterior, como levantar, andar, abrir geladeira, mexer em objetos, além de distorções importantes da arquitetura do sono, com prejuízo ao descanso profundo e ao sono REM.

Outro bloco da entrevista foi dedicado ao TDAH e ao uso de medicamentos como Ritalina, Venvanse e Atent. Eulâmpio explicou que, em pessoas com diagnóstico correto, há alteração em áreas específicas do cérebro responsáveis por foco e controle de impulsos, e que o uso dessas medicações, em doses terapêuticas, ajusta o funcionamento dessa região, melhorando o desempenho escolar e profissional e reduzindo impulsividade e hiperatividade, sem necessariamente provocar dependência. O quadro muda, porém, quando alguém sem TDAH usa o medicamento como “doping cognitivo” para estudar ou trabalhar mais. Nesses casos, o cérebro é empurrado para além do nível fisiológico, adapta-se à nova condição e passa a “pedir” a substância para manter o mesmo desempenho, abrindo caminho para dependência e escalada de dose.

Do ponto de vista estrutural, a Cebrapcan se apresenta como um centro de pesquisa e inovação em pleno semiárido. A associação trabalha hoje com cerca de 16 variedades diferentes de cannabis, incluindo sementes de origem holandesa, africana, inglesa e americana, selecionadas por agrônomo para maior adaptação ao clima da região e melhor perfil terapêutico. Além da cannabis, a equipe desenvolve pesquisas com plantas da Caatinga, como o mulungu, para sono e ansiedade, e vem estudando novas formas farmacêuticas: pomadas e cremes para dor localizada e psoríase, loções tópicas, óvulos vaginais para cólicas menstruais e um adesivo transdérmico com nanomoléculas de cannabis e própolis, pensado para pacientes que não conseguem fazer uso oral do óleo. A associação também funciona como campo de formação e intercâmbio, recebendo estudantes de universidades e promovendo cursos, como o de cultivo medicinal de cannabis, voltado a profissionais e iniciativas que possuem autorização judicial para plantar.

No dia a dia, a Cebrapcan atende pacientes de várias regiões do país, contando com uma rede de mais de 40 médicos de diferentes estados, que realizam consultas online de avaliação e prescrição, com valor em torno de R$ 220, e, em casos sociais, com custeio pela própria associação. Os tratamentos com óleo de cannabis, segundo Eulâmpio, ficam, em valores cheios, na faixa de R$ 100 a pouco mais de R$ 300 por mês, bem abaixo do praticado por produtos importados. A maior parte dos pacientes, porém, não paga o valor integral: cerca de 80% recebem algum tipo de subvenção, seja desconto, ajuda no envio ou cobertura total, o que representa aproximadamente R$ 20 mil mensais em apoio direto. A associação também se tornou um dos maiores clientes dos Correios no interior da Paraíba, pela quantidade de envios de produtos para outros estados.

Apesar desse alcance, o projeto ainda caminha sem financiamento público estruturado. Parte dos investimentos em infraestrutura foi viabilizada por meio de empréstimos sociais com taxas mais baixas, como operações com cooperativas de crédito e fundos específicos, mas a associação ainda precisa de equipamentos de alto custo, como um cromatógrafo em torno de R$ 350 mil e outros aparelhos que, somados, ultrapassam R$ 1,5 milhão. Eulâmpio defende que câmaras de vereadores – em especial a de Patos e de municípios onde vivem muitos pacientes – avancem no reconhecimento da Cebrapcan como entidade de interesse social, passo importante para pleitear incentivos e títulos como o CEBAS e para facilitar a importação ou aquisição de equipamentos e insumos. Ele também faz uma crítica mais ampla ao modelo farmacêutico brasileiro, altamente dependente da importação de ingredientes farmacêuticos ativos da China e da Índia, e defende que o país volte a investir na produção de seus próprios princípios ativos, incluindo fitoterápicos como a cannabis, para reduzir a vulnerabilidade em situações de desabastecimento.

Ao final da entrevista, em meio a explicações técnicas e exemplos do cotidiano clínico, a mensagem central de Eulâmpio Dantas foi clara: cannabis medicinal não é panaceia nem inimiga pública, mas um recurso terapêutico que precisa ser tratado com seriedade, ciência e responsabilidade. Da mesma forma, remédios consagrados como antidepressivos, benzodiazepínicos, estimulantes e hipnóticos exigem critério, acompanhamento e debate público honesto, longe de demonizações simplistas e da banalização da automedicação. Para ele, quem está doente e precisa de tratamento não pode ser refém de preconceito, tabu ou disputa ideológica. É essa visão, construída entre consultórios, laboratórios, plantações protegidas por lona e corredores de podcast em Patos, que a Cebrapcan tenta traduzir diariamente em pesquisa, cuidado e acesso a quem mais precisa.

Link da Entrevista: