O médico Eulâmpio Dantas, referência no uso terapêutico da cannabis no Brasil, falou sobre a atuação da CEBRAPCAM – Centro Brasileiro de Pesquisa da Cannabis Medicinal, também apresentada como Centro de Pesquisa e Estudos da Cannabis Medicinal, organização sem fins lucrativos voltada à pesquisa, produção de derivados e apoio a pacientes que necessitam do tratamento.

Há quase uma década, Dr. Eulâmpio prescreve óleo de cannabis medicinal para pacientes com patologias diversas, como epilepsia de difícil controle, autismo e fibromialgia. Ele lembra que, por muitos anos, o maior obstáculo foi o custo elevado dos produtos disponíveis pela via industrial. “Classe alta, classe média têm acesso ao óleo de cannabis já há mais de 14 anos, desde que a indústria farmacêutica entrou no Brasil. Mas a preços exorbitantes: R$ 1.500, R$ 2.000 por mês de tratamento”, relata. Para a maior parte das famílias, especialmente as de menor renda, isso tornava o tratamento inviável.

Coordenador de uma disciplina optativa na UFRN sobre uso terapêutico da cannabis medicinal, o médico conta que a ideia da CEBRAPCAM nasceu justamente do diálogo com pais de pacientes e com pesquisadores preocupados com essa barreira econômica. “A gente disse: não, por que a gente não junta esforços e cria uma instituição que possa fazer pesquisa, produzir o óleo e os derivados de cannabis e outros fitoterápicos?”, explica. Assim começou a se estruturar a associação, com foco não apenas na cannabis, mas também em plantas da Caatinga, como o mulungu, estudado para questões de sono e hipnose, e outras substâncias de interesse terapêutico.

Um dos diferenciais do projeto é a integração com a agricultura familiar. A proposta, segundo Dr. Eulâmpio, é que agricultoras e agricultores possam produzir insumos, receber um valor justo e, ao mesmo tempo, contribuir para a preservação da vegetação nativa. “A ideia também é que possam produzir e vender, receber um valor justo para manter, preservar a mata, deixar ela em pé e, daí, a gente conseguir os insumos para a produção de outras substâncias”, resume.

O médico faz questão de destacar que sua participação na CEBRAPCAM não envolve ganhos pessoais. Ele conta que, há cerca de quatro anos, cedeu um imóvel da família – um galpão – para abrigar a estrutura da associação. “Eu não recebo salário da associação e não recebo nenhum aluguel do imóvel que cedi. Acho importante colocar isso, porque a gente precisa ser transparente com os conflitos de interesse”, afirma.

Além da dimensão profissional e ética, há um elemento afetivo que o aproxima ainda mais da causa: o próprio sobrinho, carinhosamente chamado de Steninho, é um dos primeiros pacientes a utilizar o óleo produzido pela associação. “Ele não era verbal. Hoje é uma criança com ótimo desenvolvimento cognitivo, chegando a falar dois idiomas, aprendeu a ler com quatro anos de idade e faz uso do óleo”, relata, emocionado, ao explicar como a experiência pessoal reforça sua convicção na terapêutica com cannabis.

O caminho até a regularização, porém, não foi simples. Dr. Eulâmpio lembra que, no início das atividades, havia um “risco iminente de ser preso”, já que o cultivo e a manipulação da planta para fins medicinais ainda estavam em disputa judicial. Para reduzir mal-entendidos, ele tomou uma iniciativa pouco comum: comunicou formalmente as forças de segurança. “Eu fiz questão de oficiar todas as polícias. Cheguei na Polícia Federal, fui muito bem acolhido, expliquei o projeto e deixei claro que, se chegasse alguma denúncia, eles já saberiam do que se tratava”, conta. Ainda assim, havia resistência de profissionais da saúde, muitos com medo de se vincular ao tema.

Apesar das dificuldades, a CEBRAPCAM obteve autorização federal de funcionamento, marco que permitiu o avanço das atividades de pesquisa, cultivo e produção de derivados de cannabis medicinal.

Hoje, a associação desenvolve parcerias com instituições como o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e universidades públicas, consolidando-se como um polo de inovação em fitofármacos no Sertão paraibano.

Entre os projetos em andamento, Dr. Eulâmpio destaca uma pesquisa em conjunto com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Hospital Universitário para o desenvolvimento de um adesivo transdérmico com nanomoléculas, associado ao própolis, voltado a pessoas que têm dificuldade de ingerir o óleo. A ideia é que o medicamento seja absorvido pela pele, oferecendo mais uma alternativa terapêutica para pacientes que precisam da cannabis medicinal, mas não se adaptam à forma tradicional de uso.

Em linguagem acessível, o médico aproveita para explicar que o organismo humano possui um sistema endocanabinoide próprio. “Nosso corpo produz cannabis, digamos assim. Produz 2-AG e anandamida, que fazem essa maquinária do sistema endocanabinoide funcionar”, explica. Esse sistema dialoga com outros, como o serotoninérgico e o dopaminérgico, o que ajuda a entender os efeitos da cannabis em condições como dor crônica, crises convulsivas, distúrbios do sono e transtornos de humor.

Para ilustrar o potencial terapêutico, ele cita o caso de uma escocesa descrito na literatura científica: ela nunca sentiu dor na vida e chegou a passar por cirurgia sem necessidade de analgésicos. Ao investigar a causa, pesquisadores descobriram uma mutação em uma enzima responsável por degradar endocanabinoides, o que fazia com que seu cérebro permanecesse em “estado de analgesia” permanente. Essa história, lembra o médico, ajudou a impulsionar estudos sobre a relação entre o sistema endocanabinoide e o manejo da dor.

Ao final, Dr. Eulâmpio reforça que o objetivo central da CEBRAPCAM é democratizar o acesso à cannabis medicinal com segurança, evidência científica e responsabilidade social. “A gente quer que o tratamento deixe de ser um privilégio de quem pode pagar caro. Nosso compromisso é com os pacientes, com as famílias e com a ciência”, resume.

A fala do médico evidencia como iniciativas de pesquisa e produção associativa, como a CEBRAPCAM, vêm se tornando peças-chave na construção de uma política de saúde mais justa, em que o uso da cannabis medicinal deixa de ser tabu e passa a ser encarado como recurso terapêutico legítimo, regulado e acessível.

Veja o vídeo: