Na noite em que participou do podcast Pode Conversar, o empreendedor Pablo Costa, 30 anos, dono da Pablo iPhones, não levou apenas números de vendas e estratégias de marketing. Levou, sobretudo, uma narrativa marcada por fé, família, golpes, superação e uma decisão arriscada: trocar a segurança da carteira assinada pelo sonho de empreender com uma única marca no coração – a Apple.

Casado há 11 anos, pai de três filhos – Pedro, Paulo e Pietra – Pablo faz questão de deixar claro qual é seu ponto de partida: “A família é meu alicerce. A família tem me feito avançar de forma extraordinária”, afirmou. Ele conta que tudo o que construiu está diretamente ligado à esposa, aos filhos e à vivência na Igreja Promessa, onde congrega há 11 anos. Em vários momentos da conversa, fé e negócio aparecem entrelaçados, como se uma coisa explicasse a outra.

Antes de se tornar um nome conhecido no mercado de iPhones em Patos e em outras cidades, Pablo foi garçom, vendedor e funcionário em diferentes setores. Começou aos 15 anos no Centenário Café, onde aprendeu na prática a lidar com público, etiqueta e atendimento em um ambiente mais sofisticado. Depois, passou pela Chevrolet e, por fim, pela Reciclatec Informática, empresa que ele chama de “escola de empreendedorismo”. Lá ficou quatro anos vendendo provedores de internet e mergulhando em cursos de vendas. “Tinha dia que a gente saía dez, onze da noite, só assistindo vídeo de venda. Você passa a viver aquilo”, lembra.

Foi durante a pandemia que a inquietação bateu mais forte. Enquanto o mundo fechava, as entregas e a demanda por internet explodiam. Ao mesmo tempo, a estabilidade do salário CLT convivia com momentos de escassez em casa. Ele recorda a época em que o orçamento do supermercado era limitado a 300 reais: se passasse de 301, não dava. Para complementar a renda, ele e a esposa passaram a vender camisas cristãs com estampas, depois Hinode, perfumes, pulseiras, relógios. Aos poucos, o desejo de ter um “carro-chefe” mais definido começou a crescer.

Foi quando a Apple entrou definitivamente na história. Com uma pequena quantia guardada no banco, Pablo passou a pesquisar iPhones na OLX. O iPhone 11 era o queridinho do momento. Apaixonado por tecnologia antes mesmo de ter um iPhone próprio, ele encontrou um fornecedor e engatou as primeiras negociações. A primeira venda, porém, quase sepultou o sonho. Pablo vendeu um iPhone 11 vermelho para um casal de estelionatários, perdeu 3.100 reais e ainda precisou tirar do próprio bolso o dinheiro que seria repassado a um amigo, dono original do aparelho. “Era pra eu ganhar 100 reais de comissão e perdi 3.100”, conta. Em vez de desistir, decidiu encarar o episódio como um teste. Cobriu integralmente o valor para o amigo e seguiu. “Onde deveria ser o fim, eu entreguei a Deus a causa e disse: eu acredito que tem um propósito maior aqui.”

Enquanto ainda trabalhava na Reciclatec, Pablo começou a vender cerca de cinco iPhones por mês, depois dez. Atendia clientes à noite, gravava vídeos simples, sem microfone bom, sem cenário elaborado, muitas vezes usando o próprio aparelho pessoal como estoque. “Entrava um 8 Plus, eu vendia o meu e ficava com o outro. De 8 Plus, ia pra XR, depois 11, depois voltava pro 8 Plus de novo”, relata, rindo. Quando percebeu que o faturamento paralelo começava a disputar espaço com o salário, tomou uma decisão difícil: pediu demissão. “É trocar o certo pelo duvidoso. Mas se você não tiver ousadia, você não sai do comodismo”, afirma. Saiu “pela porta da frente”, com o apoio explícito do então chefe, Paulino, a quem chama de “mestre em empreendedorismo”.

Assim nasceu, de forma mais estruturada, a Pablo iPhones. Em vez de misturar marcas, decidiu ser radical: foco quase total em Apple. iPhone, MacBook, Apple Watch, AirPods, iPad. Android só em situações pontuais, sob encomenda. Ele chegou a investir em mídia para vender Xiaomi, produziu um vídeo bem elaborado que viralizou, mas o resultado em vendas não compensou. A leitura foi direta: o público da loja se identifica com o universo Apple, com a experiência e com o pós-venda, não apenas com preço. “Eu quis enfatizar a Apple na minha loja e me especializar nela”, explica.

O relacionamento com outros lojistas também ganhou uma reviravolta. Se antes o mercado era fragmentado, hoje existe um grupo de lojistas de iPhone em Patos, promovido por Pablo e por Felipe, da Importes Premium. A ideia era simples: unir em vez de rivalizar. “O sol é para todos, mas a sombra é para quem planta”, cita, lembrando uma frase que ouviu em outra entrevista. A união não elimina a concorrência, mas cria um ambiente menos hostil de troca de informações e suporte entre empresários do mesmo nicho.

Um dos pilares da Pablo iPhones é o atendimento sem distinção. Pablo conta que já recebeu clientes de Mustang e Porsche, mas também pai e filha chegando de bicicleta, com o dinheiro todo trocado para realizar o sonho do primeiro iPhone. “O princípio de uma loja bem-sucedida é tratar todos os clientes sem diferença”, resume. Essa mesma visão também o levou a “demitir” clientes quando a relação ultrapassa o limite do respeito. Ele narra o caso de um comprador que, em tom arrogante, tentou forçar um desconto de 500 reais em um iPhone 14 Pro Max – valor que, no segmento, muitas vezes representa praticamente todo o lucro. Pablo recusou, o cliente saiu irritado e, diante da escassez do modelo na cidade, voltou disposto a pagar o valor integral. O aparelho, no entanto, já não estava mais disponível – não por acaso. “Eu decidi que não queria esse tipo de cliente na minha base. Empresa sólida precisa ter princípios e valores”, diz.

Do lado da segurança, a Pablo iPhones desenvolveu processos rígidos para recebimento e revenda de aparelhos seminovos. Hoje, cada entrada é vinculada a nome completo, CPF, telefone e endereço. Os aparelhos passam por testes em software para identificar peças trocadas e, se algo não foi alterado pela própria loja, o aparelho simplesmente não é aceito. A medida nasceu de episódios traumáticos, como o de um iPhone 13 que, meses após ser recebido e revendido, foi identificado pela polícia como produto de roubo ou furto. O cliente final foi chamado à delegacia em João Pessoa, e a ligação o pegou de surpresa. Pablo agiu rápido: rastreou pelo IMEI a origem do aparelho, identificou a cliente que havia dado o iPhone de entrada – ela também não sabia da irregularidade – e, antes de qualquer acerto, resolveu o problema de quem estava na ponta. Comprou, com recursos próprios, um aparelho novo no fornecedor e mandou entregar na delegacia. “Eu me coloquei no lugar dele. Que ser humano e empresário eu seria se deixasse meu cliente sem celular, respondendo por algo de que não tinha culpa?”, questiona. Depois, resolveu a parte financeira com a antiga dona do aparelho e registrou boletim de ocorrência em Patos, preservando a reputação da empresa.

A relação com a Apple também se reflete no pós-venda. Em vez de abrir um aparelho lacrado e comprometer a garantia, Pablo orienta o cliente a acionar diretamente a fabricante, muitas vezes intermediando todo o processo. Em alguns casos, a loja cede um iPhone 13 Pro Max, 14 Pro Max ou até 15 Pro Max como aparelho substituto enquanto o dispositivo está em assistência. “O celular hoje é ferramenta de trabalho, é indispensável. Eu não consigo imaginar deixar o cliente 15 dias sem nada”, comenta.

Com o tempo, o alcance da Pablo iPhones ultrapassou as fronteiras de Patos. Hoje, Pablo atende com frequência clientes de João Pessoa – entre eles médicos, pilotos de avião e profissionais com rotina intensa – e de Juazeiro do Norte, onde já fez vendas de lotes inteiros de iPhones 17 Pro Max. Em muitos casos, a diferença não está no menor preço, mas na rapidez de resposta. Ele lembra de um cliente de Juazeiro que tentou contato com várias lojas da própria cidade e não foi respondido. “Quando eu atendi, ele disse: ninguém me respondeu, você respondeu. Aí o preço deixa de ser o fator principal”, relata.

Embora não tenha agência fixa de marketing, a comunicação da Pablo iPhones é cuidadosa. Os vídeos do feed contam com a parceria do videomaker Thiago Lucena, enquanto os bastidores e stories ficam a cargo de João, braço direito na loja. Um dos conteúdos mais marcantes foi o lançamento do iPhone 17 Pro Max laranja, gravado no mercado público de Patos, no meio das bancas de tangerina, fazendo alusão à cor do aparelho. O vídeo, que começou com o áudio real do cliente pedindo exatamente aquele modelo e aquela cor, viralizou e passou das 70 mil visualizações. “Muita gente achou que não ia vender por ser um aparelho muito caro, mas virou nosso carro-chefe. Hoje, quando se fala em 17 Pro Max em Patos, o nome da gente aparece”, avalia.

Apesar da estética de sucesso nas redes sociais, Pablo faz questão de lembrar que nem tudo são flores. Ele narra, emocionado, uma das fases mais difíceis do casamento. De carteira assinada na Chevrolet, chegou em casa certa noite e encontrou a esposa, grávida do primeiro filho, chorando com um copo de leite e um pedaço de pão na mão – era tudo que havia para comer. Ele abriu mão da refeição para que ela se alimentasse e, depois que ela dormiu, passou a noite em oração. “Eu disse a Deus: eu não tirei minha esposa da casa da mãe dela para ela passar necessidade.” No dia seguinte, ao chegar do trabalho, foi surpreendido pelo líder de jovens da igreja, que abriu o porta-malas do carro com uma feira completa, suficiente para três meses. “Não tinha outra explicação: era Deus respondendo a oração da madrugada”, afirma.

Histórias como essa explicam por que, no fim da entrevista, Pablo volta ao mesmo tripé que abriu a conversa: fé, trabalho e família. Para ele, dinheiro é consequência do plantio certo, não objetivo final. “Tudo aquilo que o homem plantar, ele certamente colherá”, diz, citando a Bíblia. E reforça um lema que repete aos filhos: família não se abandona. “Eu amo Pedro, Paulo e Pietra, mas a primazia do amor aqui é pela mãe deles, porque todos vão se casar e ir embora. No fim, quem fica comigo é ela. Eles entendem o lugar de cada um. E acima de tudo isso está o Senhor Jesus. Ele não é o primeiro, ele é tudo”, conclui.

Da primeira venda perdida em um golpe ao status de referência regional em iPhones, a trajetória de Pablo mostra que, entre um iPhone 11 vermelho e um 17 Pro Max laranja, há algo que não se compra em nenhuma loja: caráter, coragem de recomeçar e a convicção de que, sem família e sem Deus, nenhum negócio se sustenta.

Entrevista Completa: