
No último sábado, 20 de dezembro, às 17h, o podcast Pode Conversar recebeu, no quadro Voz e Representação, o comunicador Genival Junior (Genival Felix de Oliveira Junior), 51 anos, natural de Patos. Com uma trajetória que atravessa rádio, jornalismo e pesquisa de opinião, o convidado conduziu uma conversa ampla — do futebol à política, da ética jornalística ao uso da inteligência artificial — sempre com a marca de quem soma décadas de microfone, apuração e leitura de cenário.
Radialista desde 10 de março de 1995, jornalista desde julho de 2006 e pesquisador desde 2004, Genival Junior construiu carreira em emissoras como Rádio Itatiunga AM (1995–1996), Rádio Panati AM (1997–1999), Rádio Espinharas AM (2000–2004), Rádio Itatiunga FM (2009–2017), Rádio Espinharas FM (2019–2021) e, mais recentemente, Rádio Universidade FM de Patos (2021–2025). Também atuou em assessorias de comunicação — com passagens pela Prefeitura de Patos (2005–2011 e 2017–2019), além de instituições e entidades locais — e segue à frente do Instituto Patoense de Pesquisa e Estatística (INPPE), realizando levantamentos de opinião pública em municípios como Patos, Campina Grande, Sousa e Cajazeiras.
A entrevista começou com o reconhecimento do apresentador, que o apresentou como “uma enciclopédia da comunicação” e contextualizou seu caminho profissional. Genival respondeu com a serenidade de quem se vê, ao mesmo tempo, experiente e ainda inquieto: “A gente chega ainda muita gente me considerando jovem, graças a Deus por isso, mas já tenho aí pouco mais de três décadas para contar das experiências adquiridas ao longo da vida.”
Ao explicar como entrou no rádio, Genival resumiu o início em uma frase que costura destino e oportunidade: “O rádio surgiu meio que por um acaso, mas foi um acaso muito oportuno na minha vida.” A porta de entrada veio pelo esporte — e pela paixão de torcedor, especialmente por narrativas e histórias do futebol numa época em que a internet “ainda não tinha chegado”.
Ele lembrou a influência do irmão mais velho, a rotina de acompanhar emissoras de referência e o convite que mudaria tudo: “recebi um convite do saudoso Luís Carlos. Luís Carlos foi meu pai, profissionalmente falando, aquela pessoa que me levou ao rádio”. A partir daí, consolidou-se em equipes e programas esportivos, formando repertório com nomes e referências da crônica esportiva.
Quando o tema chegou à Copa do Mundo, Genival voltou ao trauma fundador de muitos brasileiros e explicou por que 1982 segue como marco emocional: “Eu tive realmente aquela situação marcante, nem sonhava de chegar no rádio naquela hora, mas foi o maior trauma futebolisticamente falando da minha vida.” Em seguida, conectou aquela época ao diagnóstico contemporâneo: “pela a perda da Copa de 82 e de 86, o Brasil já tinha aberto mão do futebol arte” — uma leitura que abriu espaço para discutir organização, gestão e profissionalização no esporte.
No recorte de “referências de clube” nos anos 1990, ele destacou um símbolo de estrutura e comando: “Nessa época, a principal referência era o São Paulo, os anos 90, o São Paulo de Telê Santana, bicampeão do mundo”. E trouxe a conversa para o futebol de Patos, apontando como realização pessoal acompanhar um feito histórico: “eu tinha um sonho e consegui realizar no ano de 2007, de ver um clube de pato ser campeão paraibano.”
A passagem do esporte para a política, segundo Genival, não foi ruptura: foi continuidade. A política, disse, sempre esteve no seu entorno desde cedo: “Em 1982, eu tinha 8 anos de idade e acompanhava as eleições de Patos.” E atribuiu parte dessa formação ao vínculo familiar: “eu tive um tio, vereador aqui em Patos nessa época, chamado Polion Carneiro”.
A experiência no rádio, por sua vez, lapidou uma habilidade que ele considera central ao jornalismo: a investigação. “todo jornalista, todo bom jornalista, ele é um investigador. Porque você tem que investigar a informação.” Na avaliação dele, o método — checar, contextualizar, entender o “por trás” — é o que sustenta credibilidade em tempos de ruído: “a verdade ela sempre vai aparecer.”
Questionado sobre o jornalismo na era das fake news e sobre a inteligência artificial, Genival adotou um tom de alerta, mas sem demonizar ferramentas. Ele observou a presença de atores “mal intencionados” e descreveu o impacto disso no ecossistema informacional, reforçando a necessidade de responsabilidade profissional.
Sobre IA, defendeu o uso qualificado: “A inteligência artificial é uma coisa realmente importantíssima e para quem sabe usar e quem bem usa, ela vem agregar ao jornalismo.” E resumiu o divisor de águas: “entre você fazer o bom uso e o mau uso da inteligência artificial, isso vai fazer a diferença de quem é profissional e de quem não é.” A entrevista, nesse trecho, reforçou uma premissa prática: tecnologia amplia capacidade, mas não substitui ética nem apuração.
Ao relembrar coberturas eleitorais, Genival destacou o aprendizado em campo, a rotina de acompanhar seções e boletins e a evolução do olhar profissional. “Eu fiz cobertura diretamente nas sessões.” Com o tempo, diz, mudou a obsessão pela primazia do “furo”: “hoje eu não tenho mais essa preocupação porque aquela coisa a informação que você vai dar é a mesma que eu vou dar é a mesma que todo mundo vai dar mas a questão é a maneira como você vai dar.”
Sobre a eleição mais marcante, apontou a intensidade do período recente: “a eleição que mais me chamou a atenção… foi a eleição de 2022 por conta do acirramento” e pela forma como a disputa “puxou” a população para dentro da campanha.
Em seguida, a conversa entrou em sistema eleitoral, voto proporcional e impactos financeiros na disputa. Genival sintetizou o desestímulo a candidaturas menores e antecipou reflexos locais: “isso está desestimulando a questão de candidaturas menores” e “a gente vai ver esse reflexo em 2028”.
Ao narrar suas próprias experiências como candidato a vereador (2008 e 2016), Genival detalhou tanto as motivações quanto o choque de realidade. A campanha, segundo ele, não é somente ideia e projeto: exige estrutura, logística e leitura do desejo imediato do eleitorado. Em um trecho direto, ele descreveu o que escutava nas portas: “o povo quer saber o que você tem para oferecer a ela.” E concluiu, sem rodeios, sobre o contraste entre proposta e barganha: “só conversa bonita não enche gaiola de ninguém, barriga de ninguém.”
A entrevista também percorreu o tabuleiro político para 2026 e, especialmente, a dinâmica de Patos — com recortes de ciclo político, força de grupo e carência de nomes competitivos. Genival fez um diagnóstico sobre a reorganização local após 2018 e afirmou: “Patos hoje não tem dois grupos.” Para ele, a cidade tem potencial eleitoral, mas enfrenta um problema de oferta política: “Patos tem condição de eleger mais de um deputado? Tem, mas o que falta em Patos é nomes.”
O trecho avançou para a leitura de “votos órfãos” e a disputa por espaço regional, com a ideia de que, quando não há estruturas bem definidas, outras lideranças e projetos tendem a ocupar o vácuo.
No final, Genival explicou como a assessoria de comunicação entrou em sua trajetória a partir da formação universitária. Ele lembrou a chegada do curso de jornalismo em Patos e sua própria turma: “o curso de jornalismo chegou em Patos em 2002… e eu fui para a segunda turma.” A experiência, disse, ampliou seu horizonte profissional para além do rádio — passando por educação, sindicato e setor público — com a lógica de “levar para fora dos muros” ações e informações que ficavam restritas aos ambientes internos.
A entrevista com Genival Junior no Pode Conversar firmou-se como uma conversa de memória e método: memória de quem viveu rádio no tempo da escassez de fonte, e método de quem insiste em apurar, contextualizar e sustentar credibilidade como patrimônio profissional. Entre histórias do esporte, bastidores do jornalismo e leituras políticas, o convidado reforçou um ponto que atravessou toda a conversa: informação não é apenas o que se diz — é como se constrói, como se verifica e como se entrega ao público.
Entrevista Completa Disponível em: