Jamerson Ferreira abriu a temporada 2026 do Voz e Representação na edição #038 com o mesmo traço que o tornou reconhecido em Patos e região, uma comunicação direta, irreverente e, ao mesmo tempo, ancorada em leitura política e vivência de rádio. Recebido em um ambiente que ele próprio comparou a “podcasts nacionais”, Jamerson começou a conversa valorizando a existência de espaços “democráticos”, onde a fala não precisa de mandato para ter alcance, ideia que atravessou toda a entrevista e ajudou a explicar por que sua trajetória mistura, sem fronteiras rígidas, microfone, rua e plenário.

A origem dessa vocação, segundo ele, vem de casa. Neto de Leôncio do Parque, Jamerson se descreve como herdeiro de uma tradição de comunicação popular que marcou décadas na cidade. Conta que o avô teria sido pioneiro na chegada do carro de som ao município, citando nomes do rádio local e lembrando a influência de vozes que formaram gerações. “Eu me identifiquei com o rádio”, resumiu, situando sua entrada no meio ainda no começo dos anos 2000 e reforçando o percurso, concursos que não viraram destino e uma escolha deliberada por jornalismo. Para ele, a comunicação não é só um trabalho, é instrumento de representação. “Quem tem uma voz que pede, que clama… representa”, afirmou, costurando o conceito do programa ao seu próprio modo de atuar.

Na entrevista, Jamerson revisitou um período em que essa “voz” ganhou projeção também fora do dial, sobretudo durante a pandemia, com quadros e comentários que misturavam bastidor, leitura e uma linguagem popular que virava bordão. Ele recordou, com detalhes, episódios que alimentaram a reputação de “dar notícia em primeira mão”, citando previsões e informações de bastidores na política local e, principalmente, a cena que o apresentador relembrou como “sacada”, quando Jamerson, diante de Nabô, cravou publicamente que ele seria candidato, apoiado em sinais internos da composição e na dinâmica das alianças. Para Jamerson, “política é leitura”, não é exatidão, mas percepção do que está sendo montado antes de ser anunciado.

O caminho para a política institucional, ele situou como consequência de um “momento”. Ao descrever a turbulência administrativa vivida por Patos em ciclos recentes e a avaliação dura que fez sobre a legislatura 2016–2020, Jamerson apresentou sua eleição como parte de um contexto de saturação, a cidade teria pedido “pessoas diferentes na política”. A campanha, segundo ele, foi “franciscana”, feita com doações, pequenos apoios e material simples, uma narrativa que reforça a imagem de quem chegou mais pelo capital de comunicação e pela conjuntura do que por estrutura tradicional.

Já no trecho em que analisa 2026 na Paraíba, Jamerson adotou o tom de comentarista que ele mesmo disse estar priorizando agora. Falou sobre o peso da “caneta” na formação de cenários, sobre como a dinâmica de governo tende a reorganizar lealdades e sobre a dificuldade que figuras sem estrutura própria enfrentam quando deixam o cargo. Nesse contexto, fez uma leitura particularmente crítica sobre a capacidade de articulação de João Azevêdo sem o comando do Executivo e apontou o papel do Republicanos e de Hugo Motta como forças de gravidade do tabuleiro. Ao mesmo tempo, defendeu que Brasília “engole” quem não articula e comparou perfis para o Senado, destacando que, entre nomes postos, a experiência e o estilo frio de negociação contam mais do que gratidão por gestão passada. A análise, típica de rádio, foi costurada com exemplos históricos, viradas eleitorais e a ideia de que o voto de senador é “o último a ser definido” pelo eleitor.

A conversa voltou então à política municipal, com Jamerson projetando limites para a autonomia de gestores que assumem sob guarda-chuva de grupos consolidados e tratando a eleição da presidência da Câmara como peça-chave do arranjo local. Nessa parte, ele também comentou a atual legislatura, atribuindo nota de “sete” e afirmando sentir falta de debate, embora tenha feito uma ressalva positiva ao citar vereadores que, na visão dele, exercem cobrança mais firme em favor da cidade.

O ponto mais pessoal do episódio apareceu quando Jamerson tratou de mandato, derrota eleitoral e autocrítica. Ele recusou explicações únicas, dizendo que “um fato não explica tudo”, e elencou fatores, erros próprios de mobilização, fragilidade da oposição, ambiente pró-governo e, sobretudo, o que chamou de “safadeza” e “pilantragem” partidária, em referência à desorganização e desistências que, segundo ele, desidrataram uma chapa e alteraram o cálculo eleitoral. Ao falar de Josmar Oliveira, Jamerson foi enfático ao considerar injusta a perda de mandato e lamentou o que entende como empobrecimento do debate na Câmara sem a presença de uma voz oposicionista mais incisiva.

Entre as bandeiras do período legislativo, Jamerson destacou produção de projetos e a postura de “ler e discutir” aquilo que, segundo ele, antes era aprovado por inércia. Citou medidas ligadas à proteção de mulheres, como restrições a homenagens e contratações de pessoas condenadas por violência, e trouxe um aspecto simbólico que reforçou sua narrativa de coerência, afirmou ter doado salários no exercício do mandato e usou isso para sustentar a crítica ao aumento de assessorias parlamentares. Para ele, ampliar estrutura de gabinete é “tapa na cara” da população e não se justifica por necessidade de trabalho legislativo, defendendo que o custo deveria ser discutido com mais responsabilidade pública.

No campo das causas, Jamerson dedicou atenção especial ao autismo, com uma explicação que mistura vivência familiar e cobrança de política pública. Pai de duas crianças autistas, ele afirmou que não tratou o tema como estratégia eleitoral, mas como “vida”, e sustentou que o problema não é apenas ter leis, é fazer cumprir, ampliar equipes, reduzir espera por terapias e garantir assistência real. Ao mencionar a demanda por uma estrutura especializada, como a “casa do autista”, Jamerson valorizou iniciativas anteriores e cobrou continuidade, reconhecendo atores que mantêm o tema em pauta, mas insistindo na distância entre discurso e entrega.

Ao final, já nas considerações derradeiras, Jamerson consolidou o fio condutor do episódio, mandato pode terminar, mas voz não. Ele se apresentou como comunicador que seguirá cobrando e defendendo causas no rádio, no celular, no carro de som e onde houver espaço para falar. A despedida, leve e humana, com a promessa de voltar com mais tempo e “um suco”, fechou o programa no mesmo tom em que começou, a política pode mudar de forma, mas a representação, para quem vive de comunicação, segue sendo exercício diário. Em sua estreia no Voz e Representação de 2026, Jamerson Ferreira deixou uma síntese que também é recado, em cidades onde o microfone vale tanto quanto o cargo, a disputa principal é por credibilidade, coerência e capacidade de transformar indignação em pauta pública.

Entrevista Completa: