
O podcast Pode Conversar, apresentado por Francisco Anderson, recebeu na noite desta sexta-feira (30/01), às 19h, os analistas Eryvelton Lima e Genival Júnior, ambos com atuação ligada a institutos de pesquisa e análise de dados eleitorais. O episódio, anunciado previamente nas redes sociais do programa, reuniu os dois convidados para uma conversa centrada no papel das pesquisas no processo eleitoral e na leitura do cenário político para as eleições de 2026, com destaque para a disputa pelo Governo da Paraíba e para as duas vagas ao Senado.
Logo na abertura, o apresentador contextualizou o tema e indicou que o episódio abordaria não apenas números, mas também questões que costumam circular entre eleitores e grupos políticos, como “nome de chapa”, “cauda eleitoral” e o desenho das alianças. A entrevista ocorreu em tom de conversa, com perguntas diretas e espaço para que os entrevistados detalhassem pontos técnicos e percepções acumuladas ao longo de eleições anteriores.
“Pesquisa vale? acerta? influencia?”: convidados destacam dúvidas recorrentes do eleitorado
Nas considerações iniciais, Genival Júnior afirmou que o tema pesquisa eleitoral se tornou parte constante das discussões políticas, principalmente pela expansão do mercado nos últimos anos. Segundo ele, é comum ouvir questionamentos como “pesquisa vale ou não vale?”, “acerta ou não acerta?” e até “precisa fazer ou não precisa?”, além de dúvidas motivadas tanto por experiências anteriores quanto pela circulação de levantamentos em grande quantidade, especialmente no período de pré-campanha.
Eryvelton Lima, por sua vez, destacou a própria experiência na área e afirmou que o formato do podcast vem se consolidando. Ele também mencionou que, além do trabalho técnico com dados e percentuais, analistas acabam sendo cobrados a opinar sobre conjunturas políticas, principalmente quando as eleições se aproximam. Na entrevista, ele ressaltou que o início do ano já indicava movimentações fortes no cenário político estadual.
Erros históricos e “barrigadas”: entrevistados comentam pesquisas que não se confirmaram nas urnas
Ainda no início do episódio, Francisco Anderson retomou exemplos de eleições passadas na Paraíba, citando casos em que institutos tradicionais apontaram uma liderança que não se confirmou no resultado final. A pergunta foi direcionada especialmente ao caso em que pesquisas davam ampla vantagem a um candidato, com percentuais altos, mas o resultado mostrou uma virada expressiva.
Genival Júnior respondeu resgatando o histórico de acompanhamento eleitoral desde a década de 1980 e citou a eleição presidencial de 1989 como um marco na ampliação da divulgação de pesquisas. Ele afirmou que institutos tradicionais como o antigo Ibope (atual Ipec) já cometeram erros em disputas estaduais, mas que, na avaliação dele, existe um dado que chama atenção: em eleições presidenciais, esses institutos costumam ter desempenho mais consistente, com resultados dentro da margem de erro.
Ao tentar explicar o motivo de alguns erros em estados, Genival apontou hipóteses. Uma delas seria a falta de conhecimento da realidade local por parte de equipes externas. Segundo ele, quem está mais acostumado com a realidade do Sul e Sudeste pode cometer falhas ao aplicar pesquisa em estados onde não domina as dinâmicas geográficas e políticas. Outra hipótese citada por ele foi a possibilidade de erros mal-intencionados, quando resultados são manipulados ou apresentados com tendência de favorecer um candidato. Ele destacou, no entanto, que não tinha como afirmar com certeza qual teria sido o fator determinante em cada episódio.
Eryvelton Lima complementou a discussão lembrando da eleição para governador em 2010 na Paraíba, que chamou atenção por apresentar, nas pesquisas divulgadas, percentuais muito altos para um candidato, chegando a algo entre 50% e 58% no primeiro turno, enquanto a percepção nas ruas mostrava um ambiente diferente. Ele afirmou que, como eleitor, notava que a movimentação política não correspondia ao cenário apontado pelos números, e que isso o levou a se interessar mais pelo tema da estatística e da análise quantitativa aplicada à política.
Na parte técnica, Eryvelton destacou um ponto específico: a importância de evitar coleta de dados em locais que já indiquem tendência. Ele exemplificou que não faria entrevista em casas ou áreas onde existam sinais claros de apoio a determinado grupo político, como carros adesivados ou forte presença de cor/identidade de campanha, pois isso pode contaminar o resultado. Segundo ele, quando há equipes maiores, é comum haver reuniões para orientar o campo e reduzir esse tipo de risco.
Influência no eleitor indeciso: pesquisas podem afetar decisão, mas impacto se concentra em parcela específica
O apresentador então direcionou a conversa para o tema do impacto das pesquisas na escolha do eleitor, especialmente em quem ainda está indeciso. A questão foi colocada dentro do contexto de que a eleição de 2026 já está sendo antecipada no debate público, com pesquisas sendo divulgadas ainda em 2025.
Eryvelton Lima comentou que existe uma discussão jurídica recorrente sobre o chamado “efeito manada”, com exemplos recentes de pesquisas questionadas e até impugnadas em municípios do interior da Paraíba. Ele afirmou que quem trabalha com pesquisa de forma responsável observa regras e presta atenção nesse tipo de risco, enquanto institutos que atuam de forma incorreta acabam ampliando a desconfiança no setor. Para ele, em eleições municipais, o impacto pode ser mais sensível, por envolver redes locais de apoio, vínculos pessoais e tentativas de transferência de voto.
Genival Júnior ampliou a análise dizendo que, hoje, o eleitor se informa por múltiplos canais e não depende apenas da pesquisa. Segundo ele, a pesquisa passou a ser mais um instrumento dentro do processo, não necessariamente o principal. Ele afirmou que, antes, pesquisas eram feitas de forma mais pontual, quando o político sentia necessidade de medir cenário. Agora, na pré-campanha, o uso é contínuo: pesquisas em série, com acompanhamento de desempenho e decisões sendo tomadas a partir desses relatórios.
Na avaliação de Genival, o efeito maior de uma pesquisa se concentra naquele eleitor que decide o voto no final, que pode ser levado ao voto útil, escolhendo “quem está ganhando”. Ele estimou essa parcela em cerca de 10% a 15% do eleitorado, enquanto o restante já teria o voto mais definido por fatores diversos.
Rejeição: “acima de 40% pesa” e pode limitar crescimento em segundo turno
Durante a entrevista, uma pergunta do público trouxe o tema da rejeição. Genival Júnior explicou que rejeição pode ter naturezas diferentes. Uma delas é a rejeição por antipatia consolidada, quando o eleitor conhece o candidato e rejeita suas ideias ou seu histórico. Outra, segundo ele, é uma rejeição ligada ao desconhecimento, comum em pré-campanhas: o eleitor rejeita porque não conhece ou não tem referência, mas isso pode mudar quando o candidato se torna mais conhecido.
Mesmo com essas diferenças, Genival afirmou que uma rejeição acima de 40% tende a ser um peso relevante e dificulta vitória. Ele citou ainda exemplos nacionais, como a disputa presidencial entre Lula e Bolsonaro, na qual ambos tinham rejeições altas e ainda assim foram ao segundo turno, por se tratar de uma disputa polarizada.
Eryvelton também comentou que, em geral, quanto mais conhecido um político é, mais rejeição ele pode acumular, porque também carrega histórico, polêmicas e decisões administrativas. Ele citou o exemplo de Bolsonaro, que em 2018 era menos conhecido nacionalmente em comparação ao que se tornou depois, e que em 2022 já acumulava mais desgaste, o que impacta diretamente rejeição.
Governo da Paraíba: cenário atual e efeitos de desistências e alianças
Na sequência, o podcast passou a tratar diretamente da disputa pelo Governo da Paraíba. Francisco Anderson citou o cenário inicial com vários nomes colocados e perguntou o que teria mudado após desistências e reposicionamentos políticos.
Eryvelton Lima comentou a pesquisa divulgada na quarta-feira anterior, assinada pelo Instituto ANOVA em parceria com veículo local, e afirmou que o cenário atual mostrava Cícero Lucena na frente, seguido por Lucas Ribeiro e Efraim Filho. Ele mencionou que há uma divisão política dentro do grupo ligado aos Cunha Lima, citando declarações do prefeito Bruno Cunha Lima sobre apoio a Efraim e o alinhamento de outros setores a Cícero. Segundo ele, o cenário ainda não sofreu grande alteração, mas tende a ganhar mais temperatura após abril, com a troca de comando no Governo do Estado e na Prefeitura de João Pessoa.
Genival Júnior afirmou que o cenário atual é um recorte do momento, mas que o quadro futuro pode mudar quando a pesquisa captar com mais clareza o efeito de alianças recentes, como a aproximação de Pedro Cunha Lima com Cícero Lucena. Ele questionou qual seria o peso real desse apoio: se seria uma entrada efetiva na campanha, com mobilização, ou apenas uma declaração formal. Para Genival, se o apoio for consolidado, pode fortalecer Cícero no eixo João Pessoa–Campina Grande, restando saber qual seria o reflexo disso no interior.
Senado: disputa com quatro nomes fortes e risco de “voto solto” na segunda vaga
A entrevista avançou para o tema Senado, com análise da pesquisa e da configuração de chapas. Genival Júnior comparou o cenário atual ao de 2002, quando candidaturas de peso disputaram as vagas, incluindo nomes como ex-governadores. Para ele, em 2026 já existem candidaturas com bases estruturadas, como João Azevêdo, Veneziano e Nabor Wanderley, além de Marcelo Queiroga no campo da direita.
Genival afirmou que Veneziano precisaria definir o segundo nome da chapa, pois o eleitor tende a perceber fragilidade quando há duas vagas e apenas um nome forte sendo apresentado. Ele comentou ainda sobre a especulação em torno do padre Fabrício, citando que, até o momento, não via sinais de que ele entraria na disputa.
Eryvelton Lima destacou que, especialmente em Campina Grande, Veneziano teria força no primeiro voto, mas que a falta de uma segunda opção poderia deixar o eleitor “solto” para escolher o segundo senador, abrindo espaço para outras candidaturas. Ele lembrou ainda que a disputa de Senado tende a ser “duríssima” por envolver nomes com serviços prestados e bases espalhadas pelo estado.
Entrega do bastão: entrevistados avaliam impacto político em Patos, João Pessoa e Governo do Estado
Questionados sobre o impacto da troca de comando em abril — com renúncias e substituições previstas — os entrevistados afirmaram que não viam risco imediato de rompimento por desconfiança entre titulares e vices.
Eryvelton citou Patos como exemplo, afirmando que Jacob Souto tem relação de confiança com o grupo e que não haveria expectativa de instabilidade administrativa. Em João Pessoa, ele também avaliou que Cícero Lucena não teria dificuldades com Léo Bezerra na condução do município. Sobre o Governo do Estado, ele disse que Lucas Ribeiro tende a crescer politicamente com o comando da máquina.
Genival complementou afirmando que, em Patos, Jacob não teria condições políticas de romper com o grupo dominante, pois sua base eleitoral anterior era pequena e a estrutura administrativa do município já está consolidada em torno do grupo. No Estado, ele avaliou que Lucas precisa somar projeto com João Azevêdo, porque a gestão bem avaliada do governador é um ativo político importante para a campanha, e enfraquecer João não seria estratégico.
Polarização: entrevistados dizem que tendência permanece e eleitor está mais atento à política
Outra pergunta do público trouxe o debate sobre polarização e nova geração de eleitores. Genival afirmou que a polarização não tende a acabar, pois a dinâmica eleitoral normalmente concentra preferências em dois nomes principais. Ele citou exemplos históricos, como eleições decididas em primeiro turno e casos raros de terceira via com votação expressiva.
Eryvelton concordou e destacou que, embora a polarização exista há muito tempo, hoje o radicalismo se tornou mais visível, em parte pela força das redes sociais. Ele também comentou que a população está mais informada e acompanhando mais política desde 2018, o que muda o ambiente do debate público.
PSD, Kassab e presidenciáveis: “centro” se organiza para ampliar poder nacional
Na parte nacional, os entrevistados discutiram a filiação de nomes como Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado ao PSD e o papel de Gilberto Kassab. Eryvelton afirmou que Kassab atua como estrategista, conseguindo influência tanto em São Paulo quanto no Governo Federal, além de estruturar o PSD como partido com força municipal e capacidade de atrair lideranças.
Genival apontou que governadores têm dificuldades de se tornar nomes nacionais fora de seus estados, mas que o PSD pode estar se preparando para um cenário de reorganização partidária, com redução do número de siglas e migração de quadros de partidos menores para legendas mais estruturadas.
Presidência: Lula x bolsonarismo e o crescimento de Flávio Bolsonaro
Ao tratar do cenário presidencial, Genival afirmou que a eleição tende a se manter polarizada entre Lula e o campo bolsonarista. Para ele, a família Bolsonaro ainda é a principal referência da direita e Flávio Bolsonaro aparece como nome com capacidade de herdar esse eleitorado.
Eryvelton disse que Tarcísio tinha mais facilidade para dialogar com eleitores fora da bolha da direita, mas que o nome de Flávio vem ocupando espaços e crescendo nas pesquisas, consolidando uma tendência de disputa polarizada. Ambos citaram ainda que o PT tenta reduzir fragmentação no campo progressista para evitar perda de votos já no primeiro turno.
Pesquisa espontânea e estimulada: diferença está no grau de decisão do eleitor
Respondendo a pergunta do público sobre qual tipo de pesquisa traz melhor indicativo, Eryvelton afirmou que a espontânea é importante porque mostra quem é lembrado sem estímulo. Ele destacou que até a rejeição pode indicar lembrança e presença pública do nome, enquanto o desconhecimento pode ser um problema para quem precisa crescer.
Genival explicou que a espontânea é mais “real” para medir voto consolidado, pois quem já tem candidato responde sem precisar ouvir lista. Já a estimulada mostra tendência entre indecisos e eleitores que ainda não têm definição, funcionando como retrato de preferência quando o nome é apresentado.
Nominatas e cauda eleitoral: escolha partidária pode definir eleição proporcional
No final do episódio, a conversa voltou ao cenário estadual e às disputas proporcionais. Eryvelton afirmou que a eleição proporcional exige planejamento, pois candidatos com boa votação podem ficar sem mandato dependendo do partido e do desempenho coletivo da nominata. Ele citou que partidos organizados tendem a atrair nomes e ampliar chances de eleição.
Genival explicou que a Paraíba tem grupos políticos consolidados e que isso torna a renovação mais difícil. Ele destacou que o enfraquecimento de siglas pode mudar a distribuição de cadeiras e citou que, para deputado federal, a exigência de votos é alta, tornando a montagem de chapas ainda mais decisiva.
Ao final, Francisco Anderson agradeceu a participação e afirmou que o debate trouxe informações relevantes tanto para quem acompanha política quanto para quem deseja entender o funcionamento das pesquisas. Genival e Eryvelton também agradeceram e disseram que permanecem à disposição para novos episódios, especialmente à medida que as nominatas forem definidas e os cenários eleitorais se consolidarem.
Entrevista Completa: