
No último sábado, 20/09, às 17h, o quadro Voz e Representação do programa Pode Conversar recebeu o Professor Irenaldo, doutor em Educação, para um diálogo amplo sobre trajetória acadêmica, educação popular, economia solidária e políticas públicas. Logo de início, o apresentador relembrou os tempos de aluno e destacou a forma cuidadosa como o docente conduzia avaliações. Irenaldo devolveu o elogio explicando seu norte freireano: “A avaliação não pode ser punitiva; ela precisa ajudar a pessoa a crescer. Isso é ética do cuidado, é Freire vivo na sala de aula.”
A conversa seguiu pela sua trajetória com comunidades camponesas, quilombolas, indígenas, juventudes e periferias, onde construiu práticas de educação popular baseadas na horizontalidade do saber. Para ele, universidade e território devem aprender juntos: “Na educação popular não existe saber ‘maior’ ou ‘menor’; existem saberes que se encontram.” Esse princípio pautou feiras de economia solidária ainda na UEPB, quando agricultores, artesãs e quilombolas passaram de ouvintes a protagonistas do debate acadêmico. Hoje, já em Caicó, o professor segue articulando ensino, pesquisa e extensão com pautas de diversidade, relações étnico-raciais e inclusão, aproximando estudantes de realidades e saberes ancestrais.
Um eixo forte do programa foi a defesa da economia solidária como alternativa concreta ao modelo predatório de produção e consumo. Irenaldo evocou referências como Edgar Morin e a cosmovisão do bem viver para explicar uma economia centrada no cuidado com pessoas e natureza, com manejo agroecológico, sementes crioulas e circuitos curtos de comercialização. Da feira de quintas-feiras aos casos de beneficiamento do arroz vermelho, os exemplos mostraram como qualidade, renda e autoestima crescem quando a comunidade organiza a própria cadeia produtiva. “A economia solidária cuida do solo, da água e das pessoas. É outra lógica de produzir e viver”, resumiu, citando ainda moedas sociais e cooperativas de energias renováveis como experiências descentralizadas e mais conectadas ao território.
Ao tratar de políticas públicas, o professor sublinhou a centralidade da Constituição de 1988 como base de direitos e da participação social por meio dos conselhos. Fez um panorama de avanços em segurança alimentar, proteção de crianças e adolescentes, políticas para mulheres, pessoas idosas, população LGBTQIA+ e pessoas com deficiência, defendendo que notificação e visibilidade não são “aumento de problema”, mas resultado de instrumentos que finalmente alcançam os territórios. Para Irenaldo, o SUS é patrimônio nacional e referência mundial, especialmente pela presença capilar dos agentes comunitários de saúde. “Política pública se sustenta na Constituição de 1988. Democracia é inegociável e se faz com participação”, afirmou.
A cultura apareceu como método e caminho pedagógico. Inspirado em Paulo Freire e no teatro do oprimido, Irenaldo propõe levar música e linguagem periférica para o centro da formação cidadã: batalhas de rap e slam, hip hop e outras expressões como dispositivos de leitura crítica do mundo. “Cultura é caminho pedagógico: do rap ao teatro do oprimido, a periferia fala e ensina”, disse, defendendo desafios temáticos que transformem arte em debate vivo sobre democracia, direitos e combate a todas as formas de violência e discriminação.
O programa também abriu espaço para um olhar local e prático sobre participação. Irenaldo destacou experiências de orçamento democrático e lembrou que a democracia não se esgota no ato de votar: acompanhar mandatos, ocupar conselhos e cobrar a efetivação de políticas é condição para evitar retrocessos. Na mesma linha, reforçou que conquistas como a saída do Brasil do mapa da fome se relacionam diretamente à existência de conselhos e políticas estruturadas de segurança alimentar. Sem elas, alertou, o país volta a patamares de insegurança que o Nordeste conhece bem da história das secas — um aprendizado que, para ele, consolidou a passagem do “combate à seca” para a “convivência com o semiárido”.
Ao final, o apresentador reiterou que o Pode Conversar é um espaço plural, sem censura e aberto ao diálogo com diferentes visões. O Professor Irenaldo agradeceu o convite e deixou um chamado à organização em rede: quando comunidades, movimentos e academia se conectam, o Sertão se torna laboratório vivo de cidadania. Entre a ética do cuidado na sala de aula, a roça agroecológica e a rima que vira aula pública, sua mensagem foi direta e esperançosa: “Democracia é aprendizado diário, e a educação popular é o caminho para emancipar vidas.”
Assista à entrevista completa no Pode Conversar: