
Na noite de 9 de janeiro, às 19h, o programa “Pode Conversar” recebeu Ítalo Lacerda, artista de Patos (PB) com mais de duas décadas de estrada, para uma entrevista marcada por memórias, bastidores de carreira e reflexões sobre música, fé, empreendedorismo e reconhecimento local. Entre canções ao vivo e relatos pessoais, Ítalo revisitou a própria trajetória — da igreja aos palcos, do rádio à criação da Music Mais — e explicou por que 2026, para ele, é ano de “retomar as origens” sem abrir mão da identidade artística.
Logo no início, o apresentador destacou a presença recorrente de músicos no espaço e lembrou a passagem de Ítalo por projetos conhecidos na região, como o “Forró Chinelo Dela” e apresentações voz e violão em casas tradicionais da cidade. Ítalo agradeceu o convite e se apresentou como alguém que “sempre caminhou com a música”, sem esconder que também viveu outras frentes ao longo do caminho. “A música sempre foi o nosso carro-chefe”, disse, ao comentar que o jornalismo, apesar de estar em pausa, foi uma conquista antiga: “Era uma profissão que eu sempre gostei… consegui me formar na área e, consequentemente, depois trabalhar também.”
A história com a música, porém, começa antes dos palcos e dos repertórios de barzinho. Ítalo contou que, ainda criança, na paróquia de Santo Antônio, em Patos, acabou assumindo um lugar inesperado numa celebração do mês mariano em 1999. Sem alguém para conduzir a novena, a solução foi improvisar: “Arruma uma pessoa para celebrar e eu vou cantar.” Ele descreveu o nervosismo do momento, mas a resposta veio logo depois, quando ouviu de uma frequentadora da igreja: “Você canta muito bem, você tem que ficar cantando as missas.” A partir dali, o caminho ganhou corpo com grupos de jovens e a formação de uma banda católica, com gravações e apresentações ao longo dos anos seguintes.
A virada profissional veio quando a necessidade financeira se impôs durante a faculdade e um convite abriu uma porta fora do ambiente religioso: a primeira apresentação em um restaurante e, depois, a sequência de convites para aniversários e eventos. Foi quando Ítalo percebeu que, além do palco, havia um modelo de negócio. “Eu posso ser um músico, mas eu também posso ser empresário de mim mesmo”, explicou. O raciocínio incluía repertório, estrutura e, principalmente, autonomia: ter o próprio equipamento e vender o “pacote” completo do show.
Em 2006, nasceu um dos projetos mais lembrados pelo público, o Forró Chinelo Dela, com proposta de “forró autêntico”, repertório tradicional e pitadas atuais, além de gravações ao longo dos anos. Ítalo citou fases e formações, incluindo a entrada de vozes femininas e parcerias com artistas locais. Para ele, mudanças de estilo fazem parte da sobrevivência no mercado: “Você tem que ir aos poucos se reinventar… para se manter nele, você tem que estar se reinventando.” Em 2012, a banda migrou para um formato mais voltado a bailes, formaturas e casamentos, acompanhando o movimento da região naquele período. Houve também contratos e parcerias de longo prazo com empresas e uma agenda que se espalhou pelo estado.
Com a pandemia, o setor parou, e Ítalo precisou redirecionar a energia. Foi nesse período que assumiu funções na Rádio Universidade, ligada ao Unifip, primeiro como repórter de rua e depois na bancada. Ele descreveu o contraste entre formação e prática: “Uma coisa é você se formar… outra coisa é você cair em campo e executar tudo aquilo que você estudou.” Ao mesmo tempo, a veia empreendedora que ele diz carregar desde o início voltou ao centro. A ideia era antiga: abrir uma loja de música em Patos para suprir uma lacuna que ele mesmo sentia como artista. “Eu sempre quando procurava alguma coisa aqui na cidade relacionada à música, não encontrava. Eu tinha que buscar fora.” A Music Mais começou no online, com redes sociais, vendas e reserva de capital até o passo seguinte. No fim de 2023, ele abriu o ponto físico, na Rua do Prado. “Começou com pouca coisa… hoje a loja tem 2 anos e já cresceu bastante.”
No retorno das apresentações após a fase mais dura da pandemia, a saída foi reorganizar o formato e voltar com uma estrutura reduzida, mas com identidade bem definida. A entrevista relembrou o auge do “Forró das Antigas”, que lotou casas de show e abriu agenda em cidades da região. Ítalo contou que, num dos primeiros eventos do projeto, o resultado surpreendeu até quem estava dentro: “O show era no sábado; na quinta-feira estava tudo vendido.” Ele atribuiu parte da força do projeto ao encaixe das vozes e timbres, ao repertório pensado “por bloco” e à relação de amizade com quem fez o caminho junto.
Para 2026, Ítalo disse que a proposta é mais autoral no sentido de condução artística: um trabalho “mais meu”, puxando de volta a base do forró tradicional, sem seguir modismos. “Eu não abandono… a música realmente boa. Não coloco no meu repertório certos tipos de músicas que não vão combinar comigo”, afirmou, explicando que não se trata de desmerecer outros estilos, mas de coerência de palco: “Cada artista tem que ter sua identidade.” A identidade, para ele, é justamente essa mistura do forró autêntico com o forró das antigas, sem necessidade de entrar na onda do que está em alta apenas porque “todo mundo está fazendo”.
Um dos pontos mais fortes da conversa foi a decisão de priorizar show ao vivo, sem trilhas pré-montadas. Ítalo explicou por que não quer depender de sequências gravadas: “O show fica muito mecânico… você vai ter que seguir o metrônomo… e, consequentemente, você está deixando pessoas de fora.” Ele foi direto ao impacto prático: “Está ficando músico desempregado?” Para ele, o formato ao vivo dá dinâmica e verdade ao palco: “Eu vou fazer tudo ao vivo. Não vai ter nada… no show.” No repertório, ele citou um passeio amplo: forró, canções clássicas, MPB e releituras com “roupagem nova”, incluindo momentos em que o público “puxa” um bloco específico e o show acompanha.
O tema fé atravessou a entrevista do início ao fim, com naturalidade. Ítalo falou da vida na paróquia, do cuidado com o rito nas celebrações e da música religiosa como origem permanente. “Eu nunca deixei de cantar na igreja… desde moleque.” Ao comentar sonorização de igrejas, ele levou o raciocínio para a comunicação: “Se você trabalha com a palavra, a palavra tem que chegar bem aos ouvidos das pessoas.” Também afirmou que 2026 deve ser um ano de ampliar a presença em comunidades e eventos religiosos, conciliando com a agenda profissional.
A conversa passou ainda pela política, tema que Ítalo descreveu como experiência inesperada. Ele contou que foi candidato e obteve 42 votos — número que, segundo ele, não diminui o significado do gesto de quem confiou: “Eu tive 42 votos de pessoas que acreditaram em mim.” Para Ítalo, a vivência expôs dificuldades do sistema e reforçou a ideia de que a transformação também passa por atitudes cotidianas, sem terceirizar tudo ao poder público.
Ao falar do cenário cultural de Patos, Ítalo retomou uma crítica antiga: o artista local muitas vezes precisa primeiro ser reconhecido fora. Ele citou um conselho que recebeu do sanfoneiro Santana: “Faça o seu nome fora. Porque na hora que você fizer o seu nome fora, a sua cidade vai lhe abraçar.” Na avaliação dele, faltam iniciativas estruturadas que valorizem quem produz na região, como festivais e projetos que coloquem artistas locais em evidência com retorno financeiro adequado.
Na reta final, Ítalo apresentou de forma objetiva o que a Music Mais oferece: instrumentos, equipamentos de áudio, mesas digitais, caixas de som, suporte para sonorização de igrejas e orientação de uso para aumentar a durabilidade e reduzir gastos. Ele adiantou ainda um plano para 2026: iniciar o desenho de uma escola de música, com aulas de violão e teclado, entre outras possibilidades.
Ele também citou os integrantes do projeto atual: o baterista Marcus; o sanfoneiro Damião Ribeiro; o guitarrista Josman; o baixista Dedé; o tecladista Alexandre; além de um técnico de áudio que vem acompanhando apresentações recentes. Sobre a própria missão artística, Ítalo resumiu a música como algo que ultrapassa entretenimento: “A música é conexão… e principalmente uma conexão direta com o Divino.” E completou com uma imagem simples, que resume o tom da entrevista: para ele, um violão, no lugar certo, pode mudar um momento — seja numa casa de show, numa igreja ou ao lado de quem precisa ser visto.
Ao se despedir, Ítalo agradeceu à cidade e ao público, reforçou a gratidão por quem acompanha a trajetória e deixou aberta a possibilidade de uma segunda parte. “Sou grato à cidade de Patos… onde eu posso mostrar a minha arte”, disse. “Espero voltar outras vezes para a gente fazer a parte 2.”
Entrevista Completa: