
Na última sexta-feira, 16 de janeiro, às 19h, o podcast Pode Conversar recebeu o médico Pedro Augusto para uma conversa extensa, humana e esclarecedora sobre temas que atravessam a saúde pública, o esporte, a docência e a espiritualidade no Sertão paraibano. Reumatologista, professor universitário e diretor técnico do Complexo Hospitalar Regional de Patos (Hospital Janduí Carneiro), Pedro falou a partir de quem vive diariamente os desafios da medicina e da gestão hospitalar, mas também de quem acredita no cuidado integral com as pessoas.
Logo no início da entrevista, o médico relembrou sua relação antiga com o Nacional de Patos, clube que acompanha desde a infância e no qual atua como médico de forma voluntária. Segundo ele, o futebol paraibano ainda é majoritariamente amador e sustentado por esforços filantrópicos. “Aqui é tudo por amor à camisa”, afirmou, explicando que médicos e dirigentes não recebem remuneração e, muitas vezes, ainda contribuem financeiramente para manter o clube funcionando. Um episódio relatado durante o programa ilustrou bem essa realidade: ao final de um jogo, um jovem médico que havia substituído a equipe habitual enviou sua chave Pix esperando pagamento e recebeu, como resposta, a explicação de que o trabalho ali é voluntário e movido pelo compromisso com o esporte local.
Ao falar sobre sua trajetória profissional, Pedro destacou que foi o primeiro médico da família, vindo de Bonito de Santa Fé, e que a escolha pela medicina teve forte influência dos pais, ambos professores. A vocação para ensinar o acompanhou desde cedo, quando atuou como preceptor de estudantes, até chegar à docência universitária. Atualmente, ele leciona na Unifip, onde coordena a área de urgência e emergência. Para ele, transmitir conhecimento é uma das formas mais nobres de cuidar da saúde coletiva. “Eu prefiro ser chamado de professor do que de doutor”, afirmou, ressaltando o impacto que a formação de novos profissionais tem na vida das pessoas.
No campo da reumatologia, sua especialidade, o médico aproveitou para desmistificar o chamado “reumatismo”, explicando que o termo engloba diversas doenças. Ele diferenciou as doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide, das doenças mecânicas, associadas ao desgaste natural das articulações ao longo da vida. Pedro foi direto ao afirmar que muitas dessas condições são crônicas e não têm cura definitiva, mas podem e devem ser controladas com orientação adequada, atividade física regular, controle do peso e uso criterioso de medicamentos. Segundo ele, tratar é aliviar sintomas; cuidar é orientar o paciente para conviver melhor com a doença e evitar crises recorrentes.
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi o relato sobre a pandemia de Covid-19. Pedro relembrou o medo constante de levar o vírus para casa, o impacto emocional sobre os profissionais de saúde e a rápida transformação do hospital para atender à demanda crescente. Ele destacou que, apesar do foco nas mortes, o hospital salvou muito mais vidas do que perdeu, e que a pandemia deixou um legado importante: a ampliação da estrutura. “Saímos de seis leitos de UTI para trinta”, explicou, ressaltando que esse avanço fortaleceu a rede de saúde da região.
Como diretor técnico, Pedro detalhou sua função na coordenação da parte clínica do hospital, envolvendo médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros profissionais. Também explicou, de forma didática, quando a população deve procurar uma UBS, uma UPA ou o Hospital Regional, reforçando que o hospital é voltado principalmente para casos graves, politraumas e situações que exigem internação, enquanto as UPAs atendem urgências sem risco iminente de vida.
Ao falar dos avanços da saúde em Patos, destacou o sucesso da hemodinâmica, que superou expectativas iniciais no atendimento a pacientes com infarto, e demonstrou otimismo com a implantação do Hospital de Trauma do Sertão e da radioterapia. Para ele, esses investimentos tornarão Patos uma cidade praticamente 100% resolutiva na assistência em saúde, evitando longos deslocamentos para Campina Grande ou João Pessoa.
A entrevista também abriu espaço para temas de educação em saúde, como acidentes com animais peçonhentos e grandes queimados. Pedro reforçou que, nesses casos, o tempo é decisivo e que crenças populares podem colocar vidas em risco. Procurar atendimento imediato e seguir orientações médicas é fundamental para evitar complicações graves.
Na parte final, o médico falou com emoção sobre o irmão, o padre Fabrício, e sua missão na Igreja Católica. Para Pedro, o trabalho do padre vai além da religião e alcança o cuidado com a saúde mental e emocional das pessoas. Ele também defendeu ações de humanização dentro do hospital, como a musicoterapia e a presença de voluntários, afirmando que o acolhimento, o afeto e a esperança também fazem parte do processo de cura.
Encerrando a conversa, Pedro Augusto agradeceu o convite e destacou a importância do jornalismo e dos podcasts como ferramentas de informação de qualidade. Para ele, compartilhar conhecimento é uma forma de cuidar da sociedade. “Quando a informação é boa, ela ajuda alguém, em algum lugar”, concluiu.
Entrevista Completa: