
No último sábado, 14 de fevereiro de 2026, às 17h, o Voz e Representação recebeu a advogada e empreendedora Mayres Pereira, atual presidente da Caixa de Assistência da OAB na subseção de Patos, membro da Comissão Estadual de Combate ao Racismo e também integrante da comissão ligada ao combate à intolerância religiosa. Na conversa conduzida por Francisco, Mayres abriu a trajetória pessoal, explicou seu trabalho institucional na OAB, abordou temas como justiça social, violência contra a mulher, LGPD, golpe do falso advogado e relatou um episódio de racismo que viveu na Paraíba.
Logo no início, ao ser provocada com a pergunta “quem é Mayres Pereira?”, ela definiu a própria identidade a partir de persistência e propósito social. “Eu poderia definir como uma mulher determinada, que não baixa a cabeça diante de situações difíceis… e fazer com que o meu trabalho não somente sirva para o meu crescimento… mas também trazer uma parcela de contribuição para a sociedade”, afirmou. A advogada reforçou que sua escolha pelo Direito não foi apenas profissional: “Eu não acho que a advocacia seja a minha profissão, de fato é a minha vocação. É a forma que eu escolhi… para ajudar as pessoas.”
A história acadêmica, contada com leveza, mostrou mudança de rota: antes do Direito, Mayres chegou a cursar Letras, mas decidiu voltar ao sonho antigo. “Cursei dois períodos de Letras… e disse: não é o que eu quero… vou ter que ir em busca do meu outro sonho… a carreira jurídica.” Ela também relatou as dificuldades financeiras e o esforço familiar para sustentar a graduação, destacando o impacto do FIES para concluir o curso. “Eu não vim de uma família de berço de ouro… após um ano… eu consegui o FIES… foi o que me ajudou a concluir o curso.”
Ainda na universidade, Mayres buscou formação prática e defendeu métodos de solução de conflitos fora do Judiciário. “Eu sou apoiadora de fato da solução de conflito extrajudicial, porque desafoga o judiciário… é uma forma mais rápida de resolver aquele litígio.” No programa, explicou ao público leigo o papel da conciliação e mediação: mecanismos que evitam a judicialização imediata e podem encerrar disputas com acordos formalizados.
O trecho institucional ganhou destaque quando Mayres detalhou o que faz a Caixa de Assistência da OAB. Ela explicou que a estrutura funciona para transformar parte da anuidade em benefícios à advocacia e, ao mesmo tempo, ampliar ações para além do prédio da Ordem. “A Caixa de Assistência… [é] responsável por promover saúde, bem-estar, para os advogados… a nossa anuidade… é revertida em benefícios”, disse. Na mesma linha, contou uma conquista de gestão: “A gente conseguiu um salão de beleza que faz serviços para as advogadas de forma gratuita… escova, manicure, pedicure e corte.” Para Mayres, iniciativas assim aproximam a entidade da classe e valorizam o profissional: “Isso também impulsiona o advogado a pagar a sua anuidade em dias, porque ele vê que tem um retorno.”
O ponto mais sensível da entrevista surgiu quando ela falou da atuação no combate ao racismo e explicou por que a pauta exige atitude — não apenas discurso. “Não basta a gente dizer que somos contra o racismo, nós devemos ter atitudes antirracistas.” Ao comentar a importância de acolhimento institucional, Mayres trouxe sua vivência como mulher negra: “Eu enquanto mulher negra… já sofri episódios de racismo… você se sente fragilizado… sem ter o que fazer, a quem procurar.” Em seguida, relatou um caso ocorrido em um shopping na capital paraibana, em que ela e a irmã, ambas negras, perceberam que estavam sendo seguidas. “Muita gente estava entrando no local e ninguém estava sendo seguido a não ser a gente… nós fomos seguidas até a hora de sairmos… eu só consegui sair do local e chorar.” Ela disse que procurou a administração, houve verificação por câmeras e providências internas, mas destacou a dor de não ter conseguido reagir no momento: “Por que quando aconteceu comigo eu não fiz nada?… eu estava como vítima e não como advogada naquela hora.”
A conversa avançou para tecnologia e proteção de dados, conectando o tema do preconceito a riscos digitais. Mayres comentou a rotina “no automático” de aceitar termos de aplicativos e reforçou o sentido da LGPD: “A LGPD veio para isso, para… trazer uma maior proteção de dados… em que os nossos dados estão soltos na rede.” Ela aconselhou atenção às permissões e aos “termos” antes do clique: “As letras miúdas… não ignorem, porque é muito importante.” Dentro desse bloco, trouxe um alerta que ela vê diariamente na advocacia: “Nós enquanto advogados estamos sofrendo todo santo dia o golpe do falso advogado.” Segundo Mayres, o criminoso usa dados de processos e redes sociais para construir narrativas convincentes. E deixou um conselho prático: “Se alguém está falando com você de um número de telefone estranho… no mínimo ligue para ouvir a voz daquela pessoa.”
Ao discutir justiça social, Mayres adotou uma definição direta e pedagógica, voltada para políticas públicas efetivas. “Eu, a grosso modo, definiria como a promoção de equidade… tratar o igual com igualdade e o desigual na medida da sua desigualdade.” Para ela, há excesso de leis e falta de execução: “Só o que a gente tem é lei… quando na verdade a gente precisa de políticas públicas eficazes que garantam que as leis que nós já temos sejam eficazes e eficientes.”
No campo criminal, a advogada defendeu o papel do advogado como garantia de direitos — mesmo em casos impopulares — e criticou a “criminalização” da defesa técnica. “O Estado tem que garantir que… o que tem que ser privado dessa pessoa é a liberdade dela, não é a integridade física… não é a vida dela.” Ao ser questionada sobre limites pessoais de atuação, foi objetiva: “Eu optei… [por] não atuar de maneira nenhuma nos crimes de estupro… e não atuo nos crimes de homicídio.” Sobre a carreira, registrou a marca de tempo: “Eu estou advogando desde 2016… esse ano completo 10 anos de advocacia.”
A entrevista também passou pela violência contra a mulher, com um recado claro sobre a multiplicidade de formas de agressão e a necessidade de denúncia. “Violência contra a mulher… não é só lesão corporal… temos violência patrimonial, moral, psicológica e sexual.” E reforçou que pequenas agressões já configuram violência: “Um empurrão é uma agressão sim… não precisa lhe dar um murro.” No apelo mais contundente, Mayres contrariou a velha máxima cultural: “Briga de marido e mulher não se mete a colher não existe mais… denuncie, porque às vezes aquela mulher não tem força para denunciar.” Ela também citou a importância de rede de atendimento e elogiou o trabalho do CRAM, destacando o papel de profissionais como psicólogos, assistentes sociais e advogados no acolhimento.
Na política institucional local, Mayres explicou sua atuação como assessora jurídica parlamentar da vereadora Nadir Gerlane e defendeu qualificação técnica na produção legislativa. “O interesse… foi trazer uma assessoria jurídica qualificada… para que esses projetos… tivessem fundamentação jurídica e trouxessem efetividade para a sociedade.” Ela mencionou ações ligadas à proteção de crianças e adolescentes, como o programa Família Acolhedora e iniciativas de acolhimento durante o São João, destacando a importância de envolver a sociedade em projetos de apadrinhamento: “Você pode apadrinhar uma criança… pagar um curso… ou fazer o apadrinhamento emocional.”
No encerramento, a advogada também falou do lado empreendedor e contou que concretizou um sonho recente ao assumir uma loja infantil, reinaugurada em dezembro. “Eu sempre fui empreendedora… e a gente teve essa oportunidade agora… e tem sido maravilhoso viver essa experiência.” Ao final, agradeceu o espaço e elogiou o formato do projeto, reforçando disposição para novas participações: “É um espaço que traz informação de qualidade… e me coloco à disposição para vir outras vezes.”
Entrevista Completa: