A jornalista Dayana Lucas foi a convidada do Pode Conversar neste sábado (12) e, durante mais de uma hora de entrevista, compartilhou detalhes de sua trajetória profissional, falou sobre os desafios enfrentados no início da carreira, relembrou passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba e comentou o atual momento do jornalismo político e da comunicação nas plataformas digitais.

Atualmente integrando o Fonte83 e a bancada do programa Paraíba Boa, Dayana construiu uma trajetória que passa pelo rádio, televisão, portais de notícias, produção, reportagem, edição e gestão de conteúdo. Durante a entrevista, ela contou que sua ligação com a comunicação começou ainda na infância, muito antes de imaginar que faria do jornalismo sua profissão.

“Eu sempre digo uma frase: eu não escolhi ser jornalista, o jornalismo que me escolheu”, afirmou.

Dayana lembrou que uma de suas primeiras referências foi a tia, Angelita Lucas, radialista conhecida especialmente na região do Brejo paraibano. Ainda criança, acompanhava a rotina da tia nas emissoras, atendia telefonemas de ouvintes e observava de perto o funcionamento do rádio.

Segundo ela, uma das experiências que mais ficaram na memória aconteceu quando acompanhou a tia durante uma ocorrência e viu, pela primeira vez, uma entrada ao vivo sendo realizada diretamente do local.

Mesmo com esse contato desde cedo, Dayana contou que inicialmente não pensava em seguir profissionalmente pela comunicação. O desejo da família era que ela seguisse a carreira militar, assim como o pai.

O caminho, no entanto, começou a mudar quando, ainda no ensino médio, surgiu a oportunidade de realizar um estágio no Ministério da Agricultura e ela acabou sendo direcionada para a área de assessoria de comunicação.

Da publicidade ao jornalismo

Antes de chegar ao jornalismo, Dayana cursou Publicidade. A conclusão da graduação, porém, veio acompanhada de uma realidade enfrentada por muitos jovens profissionais: a dificuldade de conseguir uma oportunidade dentro da área.

Na entrevista, ela fez questão de falar sobre esse período sem romantizar a profissão.

“Entrar no mercado de trabalho é muito difícil. É uma bolha que você precisa quebrar para conseguir se inserir”, disse.

Na época, além dos desafios profissionais, Dayana tinha uma filha pequena e precisava conciliar trabalho, estudo e maternidade. De origem humilde, relembrou que cresceu ouvindo da mãe que havia duas alternativas para mudar de vida: “estudar ou estudar”.

Depois de uma breve experiência no curso de Direito, decidiu aproveitar uma bolsa do Prouni e migrar para Jornalismo. Mas, dessa vez, entrou na graduação com uma decisão diferente: não queria esperar o término do curso para começar a procurar espaço no mercado.

Ainda nos primeiros períodos, passou a entregar currículos e buscar oportunidades em emissoras e veículos de comunicação de João Pessoa.

Foi nesse período que começou uma relação profissional que ela guarda com carinho: a convivência com o jornalista e diretor Antônio Hino.

Dayana contou, com bom humor, que insistiu durante muito tempo por uma oportunidade de estágio.

“Eu mandava mensagem praticamente todos os dias. Perguntava se tinha oportunidade. Foi no aperreio que eu entrei”, brincou.

A insistência funcionou.

Ela recebeu a oportunidade de atuar no Sistema Arapuan e começou no programa Manhã da Gente, passando inicialmente por conteúdos de entretenimento, cotidiano e projetos especiais.

Ainda como estagiária, enfrentou rapidamente uma grande responsabilidade quando precisou ajudar a colocar um programa no ar praticamente sozinha. Sem experiência, passou a estudar os roteiros e textos que já eram produzidos e buscou manter o padrão editorial.

A experiência deixou uma lição que Dayana ainda carrega.

“Às vezes a roda já está aí. Você precisa fazer ela girar, fazer os ajustes e adaptar para aquilo que precisa.”

Maternidade, trabalho e uma rotina dividida em três turnos

Um dos momentos mais pessoais da entrevista aconteceu quando Dayana relembrou as dificuldades financeiras enfrentadas durante o estágio.

Durante cerca de seis meses, contou que recebia apenas o auxílio para transporte. Ao mesmo tempo, precisava criar a filha, pagar aluguel e continuar estudando.

A rotina era intensa: pela manhã atuava na televisão, à tarde trabalhava com telemarketing e, à noite, frequentava a universidade.

Ela lembrou que, em alguns momentos, contou com a ajuda dos pais até para comprar leite e alimentos para a filha.

A experiência também influenciou sua maneira de lidar atualmente com jovens profissionais.

Dayana afirmou que, sempre que pode, procura oferecer alguma remuneração aos estagiários que trabalham com ela justamente por lembrar das dificuldades que enfrentou no começo.

ClickPB e o início no jornalismo digital

A necessidade de conseguir um trabalho remunerado levou Dayana a participar de uma seleção no ClickPB, experiência que classificou como outro divisor de águas em sua carreira.

A vaga era para repórter de portal.

O problema é que ela ainda estava nos primeiros períodos da graduação e nem sequer havia cursado disciplinas específicas de jornalismo para internet.

Durante a seleção, conheceu Janildo Silva. Dayana relembrou que foi transparente ao admitir que ainda tinha muito a aprender, mas pediu uma oportunidade.

Em determinado momento, ouviu que ainda não sabia sequer construir corretamente um lide jornalístico.

A resposta veio imediatamente:

“Eu não sei, mas você vai me ensinar. E quando você me ensinar, eu vou fazer.”

A disposição para aprender abriu novamente uma porta.

O que inicialmente seria uma experiência de estágio terminou se transformando em contratação como repórter.

A partir daquele momento, Dayana começou a conviver diariamente com profissionais mais experientes e passou a aprender não apenas técnicas de redação, mas também a velocidade exigida pelo jornalismo digital.

Ela citou diferentes profissionais que fizeram parte dessa formação e destacou que, mesmo quando algumas cobranças pareciam duras naquele momento, posteriormente entendeu a importância delas para desenvolver agilidade e resiliência.

“Prefiro dar a informação depois, mas checada”

Durante a conversa, Dayana também falou sobre uma das questões mais importantes do jornalismo: a responsabilidade com a informação.

Segundo ela, a busca pelo chamado “furo” jornalístico nunca deve ser maior que a obrigação de verificar aquilo que está sendo publicado.

“Eu prefiro dar um pouco atrasada a informação, não dar o furo de imediato, mas checar. Por causa disso eu já me livrei de muita cilada no jornalismo”, afirmou.

Para a jornalista, velocidade e responsabilidade precisam caminhar juntas, principalmente em um cenário no qual uma informação publicada pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos.

Ela também ressaltou o poder que a comunicação exerce sobre a imagem pública de pessoas e instituições.

Para Dayana, justamente por participar da formação da opinião pública, o comunicador precisa compreender o tamanho da responsabilidade que carrega.

Entre o policial e a política

Questionada sobre as áreas com as quais mais se identifica, Dayana colocou duas praticamente lado a lado: jornalismo policial e política.

A ligação com a área policial também vem de casa. Ela contou ser filha e neta de policiais e relembrou grandes coberturas que realizou ao longo da carreira.

Já a política ganhou cada vez mais espaço em sua trajetória profissional.

Na avaliação da jornalista, as duas áreas acabam se encontrando em diversos momentos e exigem características semelhantes de quem está apurando: investigação, atenção às fontes, interpretação dos fatos e responsabilidade.

Ao longo dos anos, Dayana passou por diferentes experiências no jornalismo paraibano, incluindo portais e televisão, até chegar à gerência de conteúdo.

Na TV, atuou em diferentes funções e programas, trabalhando com entretenimento, jornalismo policial, produção e direção.

Ela lembrou, inclusive, a experiência de dirigir profissionais conhecidos da televisão paraibana e destacou que passou aproximadamente 13 anos ligada aos bastidores da TV, embora também tenha realizado reportagens e coberturas externas.

Dos bastidores para a bancada

Depois de tantos anos atuando especialmente nos bastidores, uma nova mudança aconteceu.

Dayana contou que já estava cansada da rotina intensa da televisão, que muitas vezes começava ainda durante a madrugada e continuava praticamente durante todo o dia.

Foi quando recebeu o convite para integrar um novo projeto no Fonte83.

A princípio, imaginava que permaneceria principalmente no portal. Aos poucos, porém, começou a participar das discussões no rádio e apresentar suas opiniões durante a programação.

Com a saída de uma integrante da bancada do Paraíba Boa, surgiu o convite para assumir definitivamente uma cadeira no programa.

Dayana admitiu que inicialmente ficou insegura.

“Eu já tinha feito de tudo. Rádio, reportagem, produção, edição, gerência de conteúdo. Mas apresentadora? Eu não sabia se daria certo.”

Aceitou fazer o teste.

E ficou.

Hoje, uma das características que mais chamam atenção em sua participação nas entrevistas é justamente a forma direta de perguntar.

Dayana disse que procura levar aos entrevistados não apenas os seus próprios questionamentos, mas também aquilo que acredita que o telespectador ou ouvinte gostaria de perguntar.

“Eu pergunto aquilo que eu quero perguntar e aquilo que quem está do outro lado quer perguntar e muitas vezes não tem oportunidade.”

Ela reconhece que nem sempre as respostas são confortáveis e que já enfrentou situações difíceis ao vivo, mas considera que perguntar faz parte da essência da atividade jornalística.

Segundo Dayana, especialmente nas entrevistas políticas, muitos convidados chegam preparados para falar sobre determinados assuntos. O papel do entrevistador, então, é encontrar maneiras de chegar às questões que realmente interessam à população.

Política, redes sociais e influência digital

Outro ponto debatido no programa foi o impacto das redes sociais nas eleições e na construção da imagem dos políticos.

Para Dayana, ter muitos seguidores não significa necessariamente conseguir transformar popularidade digital em votos.

Por outro lado, ela considera que as plataformas digitais exercem influência cada vez maior na formação da opinião do eleitor.

Um político bem posicionado nas redes, segundo a jornalista, consegue conversar principalmente com um público que já não acompanha televisão e rádio da mesma forma que no passado.

Para ela, ocorreu uma profunda transformação na maneira como as pessoas consomem informação.

“O público está com o celular na palma da mão.”

Dayana observou que atualmente é comum assistir programas de televisão, ouvir rádio e acompanhar entrevistas por meio de YouTube, streaming e redes sociais, sem necessariamente estar diante de um aparelho de televisão ou de um rádio convencional.

Essa transformação, na opinião dela, também mudou a publicidade.

Conteúdos publicados na internet podem permanecer disponíveis, ser recortados, compartilhados e alcançar novos públicos durante muito mais tempo.

Novo projeto de televisão digital

Durante a entrevista, Dayana também falou sobre a expansão dos projetos ligados ao grupo no qual trabalha.

Segundo ela, o crescimento do Paraíba Boa e da audiência nas plataformas digitais estimulou a criação de uma televisão voltada principalmente à cobertura política e distribuída por meios digitais e serviços de streaming.

Curiosamente, o projeto representa uma espécie de retorno para quem havia decidido diminuir o ritmo ligado à televisão.

“Eu estava fugindo de TV e inventei de fazer uma TV de política”, brincou.

Dayana explicou que, apesar do DNA político, a proposta não significa tratar apenas de eleições ou partidos.

Na visão dela, política está relacionada a diferentes dimensões da vida cotidiana, como saúde, economia, segurança, esporte e serviços públicos.

Opiniões diferentes também fazem parte do programa

Dayana também comentou sobre a experiência de dividir a bancada do Paraíba Boa com Ednei Oliveira, seu esposo.

Segundo ela, os dois frequentemente têm opiniões diferentes durante o programa, algo que considera positivo para o debate.

“Eu não sou obrigada a concordar com a opinião dele e ele também não é obrigado a concordar com a minha.”

Para Dayana, justamente essa diferença de pensamento ajuda a movimentar a bancada e contribui para o formato do programa.

Fora dos estúdios, entretanto, ela destacou a parceria construída ao longo de anos.

Os dois se conheceram ainda na universidade, já tiveram outras experiências profissionais juntos e voltaram a dividir a rotina profissional no atual projeto.

Educação como caminho de transformação

A origem humilde também apareceu em diferentes momentos da entrevista.

Dayana contou que estudou durante toda a vida em escola pública e lembrou com carinho de professores que perceberam seu interesse pelos estudos e incentivaram sua mudança para instituições que pudessem oferecer novas oportunidades.

Para ela, a educação teve papel decisivo em sua trajetória.

A jornalista defendeu investimentos que ampliem as oportunidades para que as pessoas consigam conquistar autonomia por meio do estudo e do trabalho.

Ao falar sobre esse período da própria vida, resumiu novamente uma frase que ouviu muitas vezes dentro de casa:

“Minha mãe me dava duas opções: estudar ou estudar.”

Uma trajetória construída pela insistência

Do estágio não remunerado à gerência de conteúdo. Dos bastidores da televisão à bancada de um programa político. Da jovem que batia de porta em porta procurando uma primeira oportunidade à profissional que hoje ajuda a formar novos jornalistas.

A entrevista de Dayana Lucas ao Pode Conversar mostrou uma trajetória marcada principalmente pela insistência.

Ela própria reconheceu diversas vezes que muitas das oportunidades surgiram depois de insistir, procurar, perguntar e se colocar à disposição para aprender.

Também fez questão de reconhecer profissionais que encontrou durante esse percurso e que contribuíram para sua formação.

Mesmo depois de tantos anos de experiência, Dayana afirmou que continua aprendendo, inclusive com profissionais mais jovens e estagiários.

“Eu aprendo muito mais com eles do que ensino. Quando você pega uma pessoa nova, você está também pegando uma nova geração e uma nova forma de enxergar a comunicação.”

Ao final da entrevista, Dayana agradeceu pelo espaço e destacou a importância de projetos que se dedicam a conhecer as histórias por trás das pessoas.

“Continue contando histórias das pessoas. Isso é importante”, afirmou.

O encontro terminou com a sensação de que ainda havia muito assunto pela frente — tanto que a possibilidade de uma segunda conversa já ficou aberta.

Entrevista Completa: