“Saúde mental é dia a dia”: psicóloga Gabrielle Brito fala sobre ansiedade, telas, infância e a importância de desacelerar
Em entrevista ao Pode Conversar, profissional abordou ansiedade, relações familiares, uso excessivo de telas, inteligência artificial, desenvolvimento infantil e os sinais de que é hora de procurar ajuda.
O Setembro Amarelo terminou, mas o cuidado com a saúde mental precisa continuar durante todo o ano. Essa foi uma das principais mensagens deixadas pela psicóloga Gabrielle Brito, convidada do quadro Voz e Representação, do podcast Pode Conversar, neste sábado.
Em uma conversa leve, aberta e marcada por temas presentes no cotidiano de muitas famílias, Gabrielle falou sobre ansiedade, inteligência emocional, relações interpessoais, desenvolvimento infantil, uso de telas, autismo, inteligência artificial, sobrecarga profissional e a necessidade de reconhecer quando é hora de desacelerar.
Logo no início da entrevista, a psicóloga destacou que a procura por acompanhamento psicológico não precisa acontecer apenas quando uma pessoa chega ao limite. Para ela, o avanço das discussões sobre saúde mental também tem contribuído para que mais pessoas entendam a importância do autoconhecimento.
Gabrielle ressaltou que, antes de buscar desenvolvimento pessoal ou profissional, é fundamental aprender a compreender as próprias emoções, comportamentos e limites.
Relações também precisam de inteligência emocional
Outro ponto abordado foi a dificuldade enfrentada por muitas pessoas nas relações interpessoais. Segundo Gabrielle, é possível encontrar profissionais extremamente capacitados tecnicamente, mas que apresentam dificuldades para trabalhar em equipe, administrar conflitos ou mesmo estabelecer relações saudáveis.
Durante a entrevista, ela chamou atenção ainda para um comportamento comum: tratar pessoas de fora de casa com mais paciência e gentileza do que os próprios familiares.
Na avaliação da psicóloga, isso pode estar relacionado à necessidade de aceitação social. Fora de casa, existe uma preocupação maior em ser bem-visto, enquanto na convivência familiar algumas pessoas acabam depositando suas frustrações justamente naqueles com quem possuem maior intimidade.
A reflexão deixou uma mensagem importante: o cuidado emocional também começa dentro de casa.
Cuidado com diagnósticos precipitados na infância
A entrevista também entrou em uma discussão cada vez mais presente entre pais e responsáveis: a preocupação com possíveis sinais de TDAH, hiperatividade e Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Gabrielle fez um alerta para aquilo que considera uma banalização dos transtornos mentais. Segundo ela, comportamentos isolados não podem ser utilizados para determinar um diagnóstico.
Movimentos repetitivos, uma criança que muda frequentemente de brincadeira, que precisa receber várias vezes o mesmo comando ou que não gosta de abraçar determinadas pessoas, por exemplo, precisam ser analisados dentro de um contexto muito mais amplo.
A psicóloga reforçou que a infância é uma fase de desenvolvimento e que características próprias desse período não devem ser automaticamente transformadas em sintomas.
Durante a conversa, Gabrielle explicou que um comportamento passa a merecer uma investigação mais aprofundada quando começa a provocar prejuízos significativos na vida da criança, seja na aprendizagem, na socialização ou em outras atividades cotidianas. Nesses casos, a orientação é buscar uma avaliação profissional.
A profissional também reforçou que um único movimento repetitivo, isoladamente, não é suficiente para determinar que uma criança esteja dentro do espectro autista.
Telas: o problema não está apenas nas crianças
Um dos momentos mais contundentes da entrevista aconteceu quando o assunto chegou ao uso excessivo de celulares e redes sociais.
Gabrielle chamou atenção para o fato de que muito se fala sobre limitar o tempo de tela das crianças, enquanto o comportamento dos adultos muitas vezes fica fora dessa discussão.
Para ela, os pais também precisam observar a própria relação com o celular.
A psicóloga citou situações simples do cotidiano, como não conseguir ir ao banheiro sem levar o aparelho ou sentir necessidade permanente de conferir notificações mesmo durante uma conversa, como comportamentos que merecem atenção.
Além dos limites impostos aos filhos, Gabrielle defendeu o exemplo dentro de casa.
“O exemplo educa.”
Na avaliação da profissional, não é coerente exigir que uma criança reduza o uso do telefone quando os próprios adultos permanecem conectados durante boa parte do dia.
Inteligência artificial deve auxiliar, não pensar por nós
Professor, Francisco Anderson também levou para a conversa uma preocupação presente no ambiente educacional: o avanço das inteligências artificiais generativas e a utilização dessas ferramentas por estudantes.
Gabrielle afirmou não ser contrária à tecnologia e reconheceu o potencial da inteligência artificial como ferramenta de apoio. O problema, segundo ela, surge quando a tecnologia deixa de auxiliar e passa a substituir completamente o esforço de raciocínio.
Para a psicóloga, o estudante precisa continuar exercitando a capacidade de interpretar, pesquisar, relacionar informações e construir suas próprias respostas.
“A inteligência artificial usada de uma forma inteligente veio para nos beneficiar”, pontuou, defendendo que a ferramenta seja utilizada como complemento, e não como substituta do processo de aprendizagem.
Ansiedade e o peso do “e se?”
A ansiedade ocupou boa parte da conversa.
Gabrielle explicou que relações familiares, experiências da infância, conflitos, cobranças e diferentes acontecimentos do cotidiano podem participar da construção de quadros ansiosos.
Ela também falou sobre comportamentos compulsivos que podem aparecer associados à ansiedade, como compras e alimentação, ressaltando que compreender a história de cada pessoa é importante durante um processo terapêutico.
A profissional apresentou ainda uma estratégia que costuma trabalhar com pacientes: observar a frequência do pensamento “e se?”.
“E se não der certo?”, “e se alguma coisa acontecer?”, “e se ele não chegar?” são exemplos de pensamentos que antecipam situações que sequer aconteceram.
Segundo Gabrielle, quando esse turbilhão surgir, uma alternativa é interromper por alguns segundos, respirar e retornar mentalmente ao que está, de fato, acontecendo naquele momento.
A proposta é diferenciar a realidade presente das possibilidades negativas criadas pelo pensamento ansioso.
Setembro Amarelo precisa durar o ano inteiro
Ao abordar diretamente a campanha de prevenção ao suicídio, Gabrielle resumiu um dos principais conceitos da entrevista:
“Setembro Amarelo é o ano inteiro.”
Para ela, sinais como angústia persistente, ansiedade intensa, alterações no sono e a sensação de não estar emocionalmente bem precisam ser observados.
A recomendação é procurar ajuda profissional. Quando isso não for possível imediatamente, conversar com uma pessoa de confiança pode representar o primeiro passo para não enfrentar o sofrimento sozinho.
Gabrielle também destacou a importância da rede pública de saúde e lembrou que buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica não deveria ser tratado de maneira diferente da procura por outros profissionais de saúde.
“Você está bem?”
A família também apareceu como elemento central da conversa.
Para Gabrielle, uma das ferramentas mais simples e, ao mesmo tempo, mais esquecidas dentro das casas é o diálogo.
Segundo ela, muitas famílias deixaram de sentar, conversar e perguntar umas às outras como foi o dia, enquanto uma parcela considerável do tempo disponível acaba sendo entregue às telas.
Ao perceber uma mudança de comportamento em alguém próximo, a orientação é abrir uma porta para o diálogo.
Uma pergunta simples — “Você está bem?” — pode fazer com que aquela pessoa volte a observar os próprios sentimentos e perceba que existe alguém disponível para ouvi-la.
“A maior porta de saúde mental e de acesso que você pode dar àqueles que convivem com você chama-se diálogo”, afirmou.
“Se alguém te abandonou, não se abandone”
A conversa também passou pelas marcas emocionais provocadas pelo abandono.
Gabrielle explicou que determinadas experiências podem deixar memórias dolorosas e influenciar relacionamentos futuros, mas ressaltou que isso não significa necessariamente carregar uma situação sem possibilidade de ressignificação.
Foi nesse momento que ela deixou uma das frases mais fortes da entrevista:
“Se alguém te abandonou, não se abandone.”
A psicóloga defendeu a busca por acompanhamento profissional para trabalhar essas experiências e impedir que ciclos de ausência emocional sejam repetidos nas relações futuras.
Quando a pessoa sente que não suporta mais
Ao ser questionada sobre situações extremas de sofrimento emocional, Gabrielle ressaltou que a dor é subjetiva e que não existe uma explicação única capaz de representar todas as pessoas.
No entanto, destacou que pensamentos recorrentes de que a pessoa “não suporta mais” precisam ser considerados um sinal importante para procurar ajuda.
“Quando esse tipo de pensamento vier, você já precisa buscar ajuda, porque alguém vai te ajudar a suportar”, afirmou durante a entrevista.
Trabalhar muito ou viver bem?
Outro tema da conversa foi a dificuldade de separar trabalho e vida pessoal, especialmente entre pessoas que trabalham em casa ou acumulam diferentes funções.
Gabrielle explicou que não basta medir quantas horas uma pessoa está fisicamente próxima da família. É necessário observar a qualidade desse tempo.
Uma hora realmente dedicada a um filho, sem distrações, pode ter mais significado do que um dia inteiro no mesmo ambiente sem interação verdadeira.
No trabalho, a psicóloga também defendeu períodos definidos e pequenas pausas. Cansaço e sensação de esgotamento podem indicar que os limites estão sendo ultrapassados.
“Insira você na sua própria agenda”
Ao final do programa, Gabrielle deixou uma orientação para quem vive cercado de compromissos, pensamentos acelerados e cobranças:
“Desacelere e cuide de você, porque saúde mental é dia a dia.”
Segundo ela, cuidar da mente não começa apenas quando alguém chega ao limite. Começa na rotina, na percepção dos próprios sinais, na qualidade do tempo, no descanso, nas relações e na capacidade de reservar espaço para si mesmo.
“Se insira na sua agenda. Sua agenda não é apenas para o outro. Se sua agenda não é para você, então está disfuncional”, afirmou.
A atividade física também apareceu entre as recomendações para uma rotina mais saudável, juntamente com descanso, mudanças de hábitos e acompanhamento profissional quando necessário.
Entrevista Completa: