A psicóloga Gabrielle Brito chamou atenção para os cuidados necessários diante da crescente associação de comportamentos comuns da infância a transtornos mentais. Durante entrevista ao Podcast Pode Conversar, no último sábado, ela destacou que nem toda agitação, dificuldade de concentração ou mudança frequente de atividade significa, necessariamente, a presença de um transtorno.

Ao abordar o tema, Gabrielle explicou que manuais como o DSM apresentam critérios específicos utilizados como referência no processo diagnóstico. Para ela, entretanto, termos ligados à saúde mental passaram a ser utilizados de maneira cada vez mais comum fora do contexto de uma avaliação profissional.

“Quando você encontra alguém que não consegue ter constância, que não consegue iniciar algo e terminar ou que tem pensamentos dispersos, a gente já nomeia que ele tem TDAH”, comentou.

Segundo a psicóloga, esse processo pode contribuir para uma busca excessiva por diagnósticos e, principalmente no caso das crianças, provocar uma tentativa de transformar características próprias da infância em sinais imediatos de algum transtorno.

Gabrielle ressaltou que brincar, fazer barulho, movimentar-se e mudar rapidamente de interesse fazem parte do comportamento infantil.

“Parece que a gente esqueceu o que é ser criança. Uma criança faz barulho, uma criança é hiperativa. Se ela está brincando agora com um carrinho e daqui a pouco quer uma bola, gente, ela é uma criança. E que bom que essa criança é saudável, porque ela precisa brincar e precisa se movimentar”, afirmou.

Quando é necessário observar melhor?

Durante a conversa, a psicóloga também explicou que existem situações em que o comportamento merece uma avaliação mais cuidadosa. Segundo Gabrielle, um dos pontos importantes é observar se determinadas características estão provocando prejuízos significativos na vida da criança, seja na convivência social, nas brincadeiras, na escola ou na aprendizagem.

Ela citou como exemplos situações em que a criança apresenta dificuldades persistentes para se relacionar com outras crianças ou para acompanhar as atividades escolares. Nesses casos, uma avaliação psicológica pode contribuir para compreender melhor o que está acontecendo.

Gabrielle também fez uma reflexão direcionada às famílias. Na avaliação da profissional, algumas situações podem levar pais e responsáveis a procurar primeiro uma explicação diagnóstica, quando também seria importante ampliar a convivência, a observação e o diálogo com os filhos.

“Muitas vezes os pais estão preferindo entregar um diagnóstico na escola do filho do que sentar e tentar conhecer e entender aquele filho”, pontuou.

A psicóloga reforçou que diagnósticos relacionados à saúde mental exigem avaliação adequada e critérios profissionais, evitando rótulos precipitados, especialmente durante a infância.