Damião Lucena revela bastidores do caso Paulo Porto, fala sobre falhas na investigação e apresenta livro que resgata uma das maiores tragédias de Patos
Em entrevista ao Pode Conversar, jornalista e escritor revisitou a morte de Paulo Porto e Alba Liene, revelou detalhes de uma investigação marcada por controvérsias, relembrou sua convivência com as vítimas e falou sobre a importância de preservar a história de Patos e da região.
O que aconteceu com Paulo Porto e Alba Liene? Quem foi responsável pelas mortes? Por que, passadas mais de três décadas, tantas perguntas continuam sem respostas? Essas foram algumas das questões que marcaram a entrevista do jornalista, historiador e escritor Damião Lucena ao podcast Pode Conversar, apresentado por Francisco Anderson, na sexta-feira (16).
Em sua segunda participação no programa, Damião trouxe histórias, documentos, lembranças pessoais e reflexões sobre um dos episódios mais marcantes da história policial de Patos, no Sertão da Paraíba. A conversa, que durou quase duas horas, teve como destaque o lançamento de seu novo livro, Porto Morto, uma obra de 164 páginas construída a partir da análise de um processo judicial com aproximadamente cinco mil páginas.
A publicação integra a série Crimes que Abalam e apresenta uma reconstrução do assassinato do radialista Paulo Porto e de Alba Liene, ocorrido em dezembro de 1992.
Mais do que revisitar uma tragédia, Damião explicou que decidiu escrever o livro por dois motivos que se encontram em sua trajetória: o compromisso com o jornalismo e a amizade que mantinha com Paulo.
“Paulo Porto era meu amigo. Eu convivi com ele mais de dez anos. Fui seu colega de trabalho na Rádio Espinharas de Patos”, recordou.
Ao longo da entrevista, o escritor também falou sobre o trabalho desenvolvido na Garagem Cultural de Patos, a experiência na imprensa, sua atuação no município de Mãe d’Água, o livro Mãe d’Água do Romano e os projetos que ainda pretende desenvolver.
Um livro que nasceu da amizade e do compromisso com a verdade
A relação entre Damião Lucena e Paulo Porto ultrapassava os limites do ambiente profissional.
Durante mais de uma década, os dois compartilharam a rotina do rádio, amizades, encontros e momentos familiares. Damião acompanhou o nascimento dos filhos do comunicador e mantém, até hoje, vínculos de amizade com familiares de Paulo, incluindo sua esposa Gorete e a filha Thaís.
Essa proximidade tornou a decisão de escrever sobre o crime ainda mais significativa.
Segundo o autor, um dos maiores desafios foi separar a dor de quem perdeu um amigo da responsabilidade de quem precisava apresentar os fatos com equilíbrio.
O livro não surgiu de maneira repentina. Damião relatou que passou aproximadamente quatro anos tentando localizar e obter uma cópia integral do processo judicial. Depois de conseguir os documentos, dedicou mais de três anos à organização, à pesquisa, à escrita e à revisão.
O material reunido ocupa cinco grandes pastas e contém depoimentos, documentos, fotografias, registros periciais e informações sobre o andamento das investigações.
A proposta foi transformar milhares de páginas de linguagem jurídica em uma narrativa acessível, capaz de ser compreendida por leitores de diferentes níveis de escolaridade.
Para Damião, a obra não pretende substituir o trabalho da Justiça nem apresentar uma conclusão definitiva sobre quem cometeu o crime.
“O livro não condena absolutamente ninguém e nem absolve. Ele traz os elementos desse processo e cada um que faça o seu juízo de valores”, afirmou.
O escritor também revelou que esta é sua 73ª publicação, considerando livros, revistas, peças, filmes e outros trabalhos culturais desenvolvidos ao longo da carreira.
Quem foi Paulo Porto, o comunicador que conquistou Patos
Durante a entrevista, Damião fez questão de apresentar Paulo Porto para uma geração que nasceu depois de sua morte.
Paulo enfrentou dificuldades desde os primeiros meses de vida. Aos nove meses de idade, foi acometido pela poliomielite, doença que deixou sequelas permanentes em sua mobilidade.
Mesmo com as limitações físicas, encontrou maneiras próprias de se locomover e de participar das atividades cotidianas.
Filho de um marceneiro que participou da fabricação dos bancos da Catedral de Patos e de uma dona de casa, Paulo cresceu em uma família numerosa e de poucos recursos financeiros.
Damião recordou uma imagem que permanece viva em sua memória: o pai levando Paulo para a escola no bagageiro de uma bicicleta.
Quando ainda era criança, o comunicador também utilizou um pequeno veículo de madeira construído pelo próprio pai para facilitar sua locomoção.
A educação abriu caminhos. Depois de concluir etapas da formação escolar e tentar ingressar no ensino superior, Paulo encontrou no rádio a oportunidade de desenvolver seu talento.
Começou participando de programas, passou por experiências na emissora e conquistou espaço como apresentador do Show da Tarde, posteriormente conhecido como Show da Cidade, na Rádio Espinharas.
Sua voz marcante, o jeito extrovertido e a facilidade para conversar com o público fizeram dele uma figura popular.
Paulo não apenas apresentava músicas ou notícias. Ele contava histórias, ouvia os problemas dos ouvintes, aconselhava pessoas e abria espaço para quem dificilmente teria oportunidade de falar nos meios de comunicação.
Também fazia críticas políticas e participava de atividades culturais, entre elas o programa Araponga do Sertão, desenvolvido com Antônio Vieira, voltado à descoberta e valorização de talentos musicais da região.
Damião lembrou que a audiência da Rádio Espinharas alcançava localidades muito além de Patos, incluindo municípios do Vale do Piancó e outras regiões do Sertão.
Essa capacidade de comunicação ajudou Paulo a construir uma relação de proximidade com diferentes comunidades.
Sua atuação também chegou à política. Paulo disputou duas eleições para vereador e conseguiu se eleger na segunda tentativa.
Entretanto, não chegou a tomar posse.
Faltavam apenas 23 dias para assumir o mandato quando foi assassinado.
O desaparecimento e a notícia que abalou a cidade
Damião recordou que recebeu as primeiras informações sobre o desaparecimento do amigo quando já trabalhava na Rádio Itatiunga.
Era dezembro de 1992, período das comemorações religiosas de Nossa Senhora da Conceição em Patos.
Paulo havia saído na noite anterior e não retornara para casa.
Para quem conhecia seus hábitos, aquela ausência era motivo de preocupação.
Damião explicou que Paulo, apesar de gostar de sair com os amigos, costumava retornar para casa relativamente cedo. Sua esposa, Gorete, também estranhou imediatamente o desaparecimento.
“Aconteceu alguma coisa”, foi a impressão que Damião disse ter tido ao receber a notícia.
As buscas começaram, mas encontraram obstáculos e informações desencontradas.
O veículo relacionado ao deslocamento das vítimas foi localizado em Quixaba. Enquanto isso, as informações sobre a passagem pelo posto policial da Manzuá não eram consistentes, segundo o relato apresentado na entrevista.
Os corpos de Paulo Porto e Alba Liene foram encontrados na tarde do dia seguinte, em uma área que, de acordo com Damião, era conhecida por Paulo.
A violência da cena causou profunda comoção.
As vítimas haviam sido mortas com golpes de paus e pedras, conforme descreveu o escritor.
Damião também relembrou que, inicialmente, circularam informações de que os dois teriam sido atingidos por disparos de armas de fogo.
Essas versões, segundo ele, não correspondiam aos elementos posteriormente apresentados na investigação.
A repercussão foi imediata.
Familiares, amigos, profissionais da imprensa e moradores passaram a cobrar respostas sobre o que havia acontecido.
As falhas na investigação e as perguntas que permaneceram
Um dos momentos mais fortes da entrevista ocorreu quando Damião abordou a condução das investigações.
Segundo sua avaliação, o caso sofreu com a demora na realização de procedimentos, mudanças nas equipes responsáveis e dificuldades para preservar elementos que poderiam ter contribuído para a apuração.
O escritor relatou que, inicialmente, houve uma investigação conduzida no âmbito local. Posteriormente, um delegado especial de Campina Grande foi designado para o caso e, em outra etapa, houve a participação da Polícia Federal.
Na avaliação de Damião, o tempo transcorrido comprometeu oportunidades de esclarecimento.
Ele questionou, por exemplo, como realizar uma perícia meses depois do crime quando elementos importantes, inclusive o veículo relacionado ao deslocamento das vítimas, já não estavam disponíveis nas mesmas condições.
Outro aspecto destacado foi a existência de depoimentos contraditórios, especialmente sobre movimentações nas proximidades do posto policial da Manzuá.
O autor também mencionou informações e suspeitas envolvendo integrantes das forças policiais, ressaltando que o livro apresenta o que consta nos autos, sem assumir essas hipóteses como fatos comprovados.
Para Damião, a quantidade de versões que surgiu ao longo dos anos contribuiu para transformar o episódio em uma das histórias policiais mais controversas de Patos.
Ele destacou que o caso chegou a ser associado a diferentes hipóteses: motivação política, crime passional, questões familiares e possível acerto de contas.
Nenhuma dessas possibilidades, porém, foi apresentada pelo entrevistado como explicação definitivamente comprovada.
“Em determinado momento, o leitor vai achar que foi político. Em determinado momento, o leitor vai achar que foi passional”, explicou.
Na avaliação pessoal do escritor, o caso representa uma grave falha das instituições responsáveis pela investigação e pela prestação da Justiça.
Damião classificou o episódio como uma das maiores vergonhas da polícia e da Justiça de Patos, em razão das deficiências que identifica na condução da apuração.
A afirmação expressa sua avaliação crítica sobre o caso, e não uma conclusão de nova investigação.
Acusações, absolvições e a dimensão política do caso
Outro assunto amplamente explorado foi a participação de personagens que acabaram sendo envolvidos, direta ou indiretamente, nas investigações.
Damião relembrou que Jeane, primeira suplente de Paulo Porto na Câmara Municipal, passou a ser investigada e acusada no processo.
Com a morte do vereador eleito, ela acabou assumindo a vaga.
Segundo o entrevistado, essa circunstância contribuiu para alimentar a hipótese de motivação política.
Jeane chegou a permanecer presa por um período próximo de dois anos, conforme o relato apresentado no programa, mas foi posteriormente absolvida.
Seu irmão, Francisco Antenor, também figurou entre os acusados e foi absolvido.
Damião enfatizou que a absolvição deve ser respeitada e que não cabe tratar essas pessoas como culpadas diante da ausência de condenação.
O escritor também relembrou que o caso alcançou o ambiente político estadual.
Na época, os parlamentares Gilvan Freire e João Estrela tiveram participações em lados distintos do debate em torno da acusação.
Gilvan Freire, então deputado federal, atuou como assistente de acusação, enquanto João Estrela, deputado estadual, apresentou argumentos favoráveis à defesa de Jeane, segundo Damião.
O caso ainda envolveu depoimentos, divergências familiares, questionamentos sobre álibis e referências a outros nomes que apareceram durante as investigações.
O delegado especial Marçal, de Campina Grande, chegou a apontar Manoel Rufino como possível mandante, mas, conforme a narrativa de Damião, a Justiça não acolheu aquela conclusão por considerar insuficientes os elementos apresentados.
O entrevistado também relatou divergências envolvendo Jeane e o juiz Duílio Wanderley, relacionadas à administração de bens familiares, além de diferentes posições atribuídas a integrantes da família.
Essas circunstâncias são abordadas no livro a partir de documentos, depoimentos e versões dos envolvidos.
Damião reforçou que uma das intenções da publicação é justamente evitar que suspeitas e interpretações sejam repetidas como verdades definitivas.
O julgamento que Patos acompanhou pelo rádio
Entre as lembranças mais marcantes da entrevista esteve a cobertura do julgamento relacionado ao caso Paulo Porto.
O júri foi transferido de Patos para João Pessoa, procedimento conhecido como desaforamento.
Na época, Damião estava à frente do departamento de jornalismo da Rádio Itatiunga.
Ele decidiu acompanhar o julgamento na capital para que a população de Patos pudesse saber o que acontecia.
A cobertura se transformou em uma transmissão radiofônica que, segundo seu relato, se estendeu por quase 24 horas ininterruptas.
O escritor contou que chegou a conversar com o juiz Abraham Lincoln, responsável pela condução dos trabalhos, sobre os limites da cobertura jornalística.
Inicialmente, foram estabelecidas condições para que a equipe acompanhasse o julgamento de uma sala no andar superior, com entradas periódicas para transmitir informações.
Entretanto, Damião contou que a equipe encontrou uma maneira de captar o áudio do sistema de som do prédio e enviá-lo diretamente pela estrutura de transmissão da emissora.
O episódio foi relembrado com bom humor.
O jornalista reconheceu que não voltou a perguntar ao magistrado se aquela solução técnica poderia ser utilizada, mas afirmou que seu objetivo era fazer a informação chegar aos moradores de Patos.
A repercussão foi enorme.
Segundo ele, carros permaneceram com portas e porta-malas abertos, aparelhos de som ligados e moradores acompanhando, pelas ondas do rádio, os acontecimentos do julgamento.
Para Damião, aquele episódio permanece entre as experiências mais significativas de sua carreira.
A dor de acompanhar a morte de um amigo
Questionado sobre o momento mais difícil da construção do livro, Damião não apontou um documento específico nem uma etapa da escrita.
Sua resposta foi pessoal.
O mais difícil, segundo ele, foi enfrentar a realidade da morte do amigo.
Damião esteve no Hospital Regional de Patos, acompanhou os primeiros desdobramentos do caso e teve contato direto com as consequências da violência.
Posteriormente, também acompanhou procedimentos de exumação relacionados à investigação.
Mesmo após décadas de experiência na cobertura policial, afirmou que aquela situação provocou sentimentos de revolta e tristeza.
O sofrimento da família, especialmente das crianças que perderam o pai, permaneceu entre suas recordações mais dolorosas.
Durante a conversa, Damião falou ainda sobre as consequências que a tragédia deixou na família de Paulo.
Recordou a morte posterior de uma das filhas do comunicador, Tâmara, e falou com carinho de Thaís, com quem mantém amizade.
O escritor ressaltou que as vítimas de um crime não são apenas aquelas que perdem a vida. As consequências também alcançam familiares, amigos e pessoas que precisam conviver com a ausência.
Essa dimensão humana, segundo ele, não poderia ficar de fora do livro.
As dificuldades para encontrar o processo e as intimidações durante a escrita
O trabalho de pesquisa também teve momentos de frustração.
Damião contou que passou anos tentando localizar os autos.
Quando procurava o Fórum de Patos, recebia a informação de que o processo estaria em João Pessoa. Ao procurar a documentação na capital, era informado de que ela estaria em Patos.
A situação começou a mudar depois de uma conversa com um conhecido que atuava no Judiciário.
Com a intervenção relatada por esse amigo, o processo foi localizado e disponibilizado para consulta e reprodução.
Damião fotografou e digitalizou documentos, reunindo o material necessário para fundamentar a pesquisa.
Durante a elaboração da obra, também enfrentou resistências.
Segundo contou, recebeu uma mensagem que interpretou como intimidadora, enviada por uma pessoa que havia sido acusada no caso e posteriormente absolvida.
O escritor afirmou que respondeu à mensagem e manteve sua decisão de continuar o trabalho.
Outra dificuldade surgiu quando uma familiar de uma das vítimas questionou suas intenções, sugerindo que ele estaria escrevendo o livro para obter ganhos financeiros.
Damião disse ter sentido o peso dessas situações, mas decidiu prosseguir.
Ao explicar sua postura, defendeu que o jornalista deve agir com responsabilidade, independentemente das relações pessoais que mantenha com as fontes ou personagens de uma história.
Ele também ressaltou que procurou apresentar diferentes versões, incluindo documentos favoráveis à defesa, manifestações da acusação, reportagens da época e trechos de outras publicações relacionadas ao caso.
Entre os materiais reunidos estão registros da revista Bastidores, textos do jornalista Luiz Gonzaga Lima de Moraes e referências a um livro publicado por Jeane em 1998.
Poesias, fotografias e a memória de Paulo Porto
A obra não se limita aos documentos policiais e judiciais.
Damião decidiu incorporar elementos que mostram a importância de Paulo Porto para a comunidade.
Entre eles estão poesias escritas em homenagem ao comunicador.
Uma das homenagens foi produzida por Antônio de Nelson, poeta e ex-vereador de Santa Terezinha, que escreveu versos após a morte de Paulo.
Outro texto poético foi solicitado a Mizael, também lembrado durante a entrevista.
A intenção foi mostrar que Paulo ultrapassava os limites da atividade profissional e mantinha uma relação afetiva com a população.
O escritor também incluiu registros da vida familiar, da infância, da atuação cultural e das dificuldades superadas pelo radialista.
A publicação recupera ainda a existência de um projeto de livro que o próprio Paulo escrevia sobre a poliomielite.
Outro detalhe lembrado foi um marco instalado no local onde os corpos foram encontrados.
Segundo Damião, esse marco acabou retirado durante intervenções relacionadas à reforma do aeroporto, sem que houvesse a devida preservação de sua memória.
Para o escritor, episódios como esse mostram como acontecimentos importantes podem desaparecer da paisagem e, com o tempo, da lembrança coletiva.
Porto Morto terá lançamento na OAB de Patos e poderá ser enviado para todo o Brasil
A nova obra conta com apoio obtido por meio de edital da Lei Aldir Blanc e terá uma primeira tiragem de 500 exemplares.
Damião explicou que recebeu R$ 10 mil pelo projeto, valor destinado à impressão dos livros.
Cada exemplar terá o preço de R$ 35.
Para leitores de outras cidades que desejarem receber a publicação pelos Correios, o envio custará R$ 15, totalizando R$ 50.
Durante a entrevista, o escritor confirmou uma apresentação para o dia 30 de outubro de 2026, às 19h30, na sede da OAB, Subseção de Patos, localizada na Rua Rio Branco, em frente à Cultura Inglesa.
A ocasião também contará com uma iniciativa da OAB voltada à valorização de publicações relacionadas à história de Patos e de autores locais.
Damião explicou que ainda pretende realizar um lançamento oficial em parceria com a Secretaria de Cultura, com data a ser definida, além de uma apresentação nas Faculdades Integradas de Patos.
Os exemplares adquiridos na pré-venda serão entregues a partir do lançamento.
Após essa etapa, o livro também deverá estar disponível na Banca Catedral e na Banca Manchete, em Patos.
O autor pretende destinar exemplares a bibliotecas e instituições educacionais, especialmente aquelas que trabalham com estudantes adultos e cursos relacionados ao Direito.
Informações para adquirir o livro
Valor do exemplar
R$ 35,00
Com envio postal
R$ 50,00
Chave Pix divulgada por Damião na entrevista
damiaolucena@gmail.com Copiar
As informações de venda e lançamento foram fornecidas pelo autor durante a entrevista de 16 de outubro.
Garagem Cultural de Patos: um espaço dedicado à história e às novas gerações
Depois de uma longa conversa sobre Porto Morto, a entrevista também abriu espaço para outra iniciativa de Damião Lucena: a Garagem Cultural de Patos.
O projeto reúne fotografias, documentos, objetos e registros que ajudam a contar a história do município.
Damião define o espaço como uma espécie de livro físico, no qual os visitantes podem conhecer acontecimentos desde os primeiros períodos de ocupação e formação do território até os dias atuais.
A construção e organização da garagem levaram três anos e três meses.
Segundo ele, o equipamento foi estruturado com recursos próprios, sem financiamento governamental direto para sua manutenção.
A motivação, explicou, é permitir que estudantes e moradores conheçam a história da própria cidade.
O local recebe alunos de escolas municipais, estaduais, particulares e federais, além de visitantes de outros municípios.
Damião contou que a Garagem Cultural já recebeu, inclusive, visitas de profissionais da Folha de S.Paulo.
O espaço também foi preparado para receber diferentes públicos, entre eles pessoas acompanhadas por equipes do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
As visitas acontecem mediante agendamento, em razão dos compromissos profissionais do historiador.
Apesar da dedicação pessoal, Damião defendeu a necessidade de maior apoio institucional para ampliar o funcionamento do espaço.
O Chevette amarelo que virou símbolo da Garagem Cultural
Entre os objetos mais conhecidos da Garagem Cultural está um Chevette amarelo, primeiro automóvel de Damião Lucena.
O veículo, que também foi utilizado por seu pai, acabou incorporado ao acervo e hoje é considerado o mascote do espaço.
Durante a entrevista, Damião revelou que pretende comemorar os 50 anos do carro em 2027, reunindo admiradores de veículos antigos.
Ele destacou que o automóvel continua funcionando e que ainda costuma utilizá-lo em passeios aos finais de semana.
O Chevette também guarda lembranças da convivência com Paulo Porto, que frequentemente acompanhava Damião e outros amigos nos passeios pela cidade.
Para o escritor, preservar objetos como esse significa manter vivas histórias que não aparecem necessariamente nos livros oficiais.
História compartilhada e incentivo à juventude
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a preocupação de Damião com as novas gerações.
Segundo ele, não basta guardar documentos ou fotografias em arquivos particulares. É necessário compartilhar esse material, tornando-o acessível à população.
Damião também falou sobre a página Patos de Todos os Tempos, dedicada à divulgação de fotografias e registros históricos.
De acordo com o entrevistado, o perfil conta com aproximadamente 22 mil seguidores e publica diariamente três imagens históricas.
O escritor defendeu que a cultura precisa chegar também às comunidades periféricas.
Para isso, adquiriu um projetor e equipamentos destinados a um projeto de cinema comunitário, com a proposta de realizar exibições acompanhadas de atividades recreativas, como distribuição de pipoca e algodão-doce.
Ele destacou ainda que, nas visitas às escolas, procura estimular os estudantes a escrever, cantar, pesquisar e desenvolver projetos.
Durante uma atividade em Mãe d’Água, por exemplo, soube de uma jovem que havia escrito um livro inspirado pela perda de uma amiga.
Impressionado com a iniciativa, afirmou ter procurado a Secretaria de Cultura para incentivar a publicação da obra.
Para Damião, pequenas iniciativas podem transformar vidas e revelar talentos que permaneceriam desconhecidos.
Mãe d’Água do Romano: a obra que resgatou a história de um município
A entrevista também revisitou outra publicação importante de Damião Lucena: Mãe d’Água do Romano.
Com 364 páginas, o livro reúne informações históricas, políticas, administrativas, culturais e sociais do município de Mãe d’Água.
Atualmente secretário municipal de Comunicação, Damião relatou que começou a perceber a necessidade de organizar fontes de pesquisa sobre a cidade quando assumiu suas atividades.
Uma das primeiras descobertas envolveu Romano, personagem de grande importância para a história da cantoria de viola e do repente.
Embora o artista tenha nascido no território de Mãe d’Água, o escritor percebeu que havia pouca informação sobre sua trajetória nas instituições locais.
Ao visitar uma escola que levava o nome de Romano, encontrou uma fotografia apresentada como sendo do homenageado.
A pesquisa revelou, segundo Damião, que a imagem era de outra personalidade histórica, o Monsenhor Pequeno.
Como não existe uma fotografia comprovadamente identificada de Romano, o escritor explicou que utilizou recursos de inteligência artificial para produzir uma representação ilustrativa inspirada na imagem de um de seus filhos, informando expressamente a natureza da reconstrução.
A pesquisa também passou pela história de Inácia Catingueira, personagem importante da tradição da cantoria, e por documentos de pesquisadores, incluindo trabalhos de Linda Lewin.
O livro contempla períodos em que Mãe d’Água esteve vinculada a outros municípios, a formação da administração municipal e as trajetórias de prefeitos, vereadores e moradores.
Também foram incluídas histórias da exploração do ouro, da presença de ciganos, de personagens populares e de crimes que marcaram a comunidade.
Damião explicou que procurou ouvir moradores antigos, famílias e pessoas que contribuíram para a construção da identidade local.
A primeira tiragem contou com 500 exemplares, dos quais aproximadamente 300 haviam sido comercializados até a entrevista.
O escritor relatou que a impressão foi viabilizada por uma mobilização que reuniu moradores, empresários, representantes políticos e apoiadores culturais.
A comunicação em Mãe d’Água e a valorização dos moradores
Damião também falou sobre o trabalho desenvolvido como primeiro secretário municipal de Comunicação de Mãe d’Água, cargo criado após a transformação da antiga assessoria em secretaria.
Segundo ele, a comunicação pública precisa mostrar não apenas os atos da administração, mas também as histórias das pessoas, a cultura e os acontecimentos da cidade.
Como exemplo, citou o crescimento do perfil oficial da prefeitura no Instagram, que passou de aproximadamente dois mil seguidores para uma quantidade próxima de nove mil durante sua atuação, de acordo com os números apresentados na entrevista.
O jornalista explicou que procura divulgar conteúdos diariamente e utilizar registros históricos para fortalecer os vínculos entre o município e seus moradores, inclusive aqueles que vivem em outras cidades.
Também mencionou a parceria com a Secretaria de Cultura, especialmente com a secretária Rosana, no desenvolvimento de ações culturais.
Para Damião, o livro Mãe d’Água do Romano representa uma contribuição que continuará disponível mesmo depois de sua passagem pela administração municipal.
Outros crimes históricos poderão ganhar novos livros
Ao ser questionado sobre projetos futuros, Damião revelou que continua pesquisando outros episódios policiais que marcaram Patos e a região.
Entre os casos mencionados estão as mortes de Chico Chagas e Dorinha, além do assassinato do médico Arnaldo Queiroz, ocorrido em Caicó, no Rio Grande do Norte.
No caso de Chico Chagas e Dorinha, o escritor relembrou uma tragédia que, segundo os relatos históricos que reuniu, teve origem em um conflito envolvendo policiais militares e terminou com a morte de pessoas que não seriam o alvo inicial de uma possível represália.
O episódio teve grande repercussão e permanece entre os acontecimentos que Damião considera merecedores de uma pesquisa aprofundada.
Já no caso de Arnaldo Queiroz, o historiador recordou a morte de um jovem médico de Patos e os desdobramentos que envolveram sua família e suspeitos relacionados ao crime.
Entre as histórias que pretende investigar estão relatos sobre o pai do médico, acusações de vingança e a repercussão religiosa que o episódio adquiriu em Caicó.
Damião fez questão de apresentar essas narrativas como relatos que ainda exigem pesquisa, especialmente quando envolvem crenças, tradições orais e versões familiares.
Outro projeto possível é ampliar o trabalho sobre o caso da Cruz da Menina, um dos episódios mais conhecidos da história de Patos.
Embora já tenha publicado material sobre o assunto, o escritor considera que ainda existe espaço para uma obra mais detalhada.
Ele explicou que não há decisão definitiva sobre qual será o próximo livro, mas garantiu que continua reunindo documentos e informações.
Uma trajetória dedicada ao jornalismo e à preservação da memória
Ao longo da entrevista, Damião também revisitou sua carreira de mais de 45 anos na comunicação.
Falou sobre experiências no rádio, na imprensa escrita e em colaborações com veículos televisivos.
Recordou passagens pelo Jornal da Paraíba, pela Rádio Tabajara, pela CBN e pelo jornal A União, além do trabalho como secretário de Comunicação de Patos e, atualmente, de Mãe d’Água.
Também mencionou situações em que enfrentou processos judiciais em decorrência de sua atuação jornalística, afirmando que nunca foi condenado.
Para ele, a credibilidade é o maior patrimônio de um profissional da imprensa.
Damião defendeu que o comunicador precisa manter independência editorial e compromisso com a informação, mesmo quando trabalha em instituições públicas ou mantém relações pessoais com os envolvidos nos acontecimentos.
Outra preocupação destacada foi a linguagem utilizada para levar informação à população.
O jornalista recordou ensinamentos recebidos em especializações internacionais em jornalismo, ressaltando que comunicar não é utilizar palavras difíceis, mas conseguir fazer com que as pessoas compreendam corretamente aquilo que está sendo transmitido.
Um convite à leitura, à reflexão e à preservação da história
Nos momentos finais da entrevista, Damião Lucena agradeceu o espaço concedido pelo Pode Conversar e elogiou a iniciativa de Francisco Anderson de promover entrevistas dedicadas à história, à cultura e à comunicação regional.
O escritor reforçou que deseja receber críticas dos leitores, desde que feitas com responsabilidade, por entender que o debate contribui para aperfeiçoar o conhecimento e corrigir possíveis equívocos.
Também voltou a falar sobre a necessidade de preservar documentos, respeitar os fatos e evitar acusações sem provas.
Para Damião, Porto Morto não representa apenas o registro de um crime. É também uma reflexão sobre como a sociedade investiga, julga, informa e guarda a memória de acontecimentos que deixam marcas profundas.
O caso Paulo Porto continua cercado por dúvidas. A obra não apresenta uma nova sentença, mas procura reunir elementos para que o leitor conheça a história e forme sua própria interpretação.
Ao final de quase duas horas de conversa, uma mensagem ficou evidente: a memória não deve desaparecer simplesmente porque o tempo passou.
Ao recuperar a trajetória de Paulo Porto e Alba Liene, Damião também resgata histórias de famílias, de profissionais da comunicação e de uma cidade que acompanhou com tristeza e indignação os acontecimentos de dezembro de 1992.
Trinta e quatro anos depois, as perguntas permanecem. E, com o lançamento de Porto Morto, Damião Lucena espera que a história continue sendo conhecida, estudada e debatida pelas próximas gerações.
Entrevista concedida ao Pode Conversar, apresentado por Francisco Anderson, em 16 de outubro de 2026. As informações sobre o processo e as pessoas envolvidas foram apresentadas por Damião Lucena durante a conversa. Acusações históricas e hipóteses não representam conclusões independentes do portal.