Em mais uma edição do programa Voz e Representação, o entrevistador recebeu o professor Edileudo Lucena, ex-vereador de Patos por dois mandatos, ex-presidente do Esporte Clube de Patos e atual presidente do Diretório Municipal do PT. Com 39 anos de filiação ao Partido dos Trabalhadores, marca que ele afirma completar neste ano, Edileudo participou de uma conversa longa e direta sobre trajetória pessoal, conquistas e erros da esquerda no Brasil, dificuldades de governabilidade diante do Centrão, manutenção de oligarquias na Paraíba e bastidores do xadrez eleitoral para 2026.

Logo na abertura, o professor destacou o caráter mais desformalizado do bate-papo e a possibilidade de dialogar com a população de maneira acessível. Ao se apresentar, mandou saudações à esposa, Rosimere, familiares, colegas professores, estudantes e militantes do partido em Patos e em outras regiões da Paraíba. A entrevista seguiu com um fio condutor claro: a política como construção coletiva e a defesa de que o eleitor precisa assumir um papel mais ativo na ruptura de práticas tradicionais.

Ao ser questionado sobre o que o levou ao PT e por que permaneceu na legenda por quase quatro décadas, Edileudo resgatou sua origem na zona rural e afirmou que, na juventude, era tímido e evitava exposição. Segundo ele, a mudança começou ainda no ensino médio, quando foi inserido no movimento estudantil por uma professora, experiência que abriu caminho para a militância e, posteriormente, para a filiação ao partido em 1987. Ele contou que, apesar do perfil discreto, consolidou uma trajetória baseada no que definiu como coerência, firmeza de posições e compromisso com as lutas coletivas, lembrando que muitos parlamentares eleitos pela legenda no município não permaneceram filiados até o fim do mandato, ao contrário dele.

Provocado a avaliar as maiores conquistas da esquerda, Edileudo fez uma defesa ampla do papel histórico do PT e do campo progressista, sustentando que a chegada do partido ao cenário nacional rompeu a lógica da política concentrada em oligarquias, figuras tradicionais e elites econômicas. Na avaliação dele, o PT ajudou a construir a ideia de que um trabalhador podia se candidatar e governar. Ao trazer o debate para a realidade local, citou transformações em áreas como saúde, com expansão de serviços e estrutura de atendimento; educação, com ampliação de cursos e instituições, investimentos e valorização por meio do piso nacional; e agricultura familiar, com políticas de crédito, incentivo à produção e comercialização, defendendo que programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Prouni e FIES se tornaram marcos de inclusão social e acesso a direitos.

Ao mesmo tempo, o entrevistado reconheceu erros estratégicos do PT, principalmente relacionados a alianças políticas que, segundo ele, permitiram a entrada de práticas antigas no interior do governo e geraram crises que foram exploradas por adversários. Citou, nesse contexto, episódios como o escândalo da Petrobras e o mensalão como exemplos de decisões equivocadas associadas à tentativa de garantir governabilidade e aprovação de projetos. Para Edileudo, parte dessas alianças acabou contribuindo para a instabilidade política que culminou no impeachment de Dilma Rousseff, apontando que a reação das forças conservadoras se intensificou após a sequência de vitórias eleitorais do partido.

A discussão sobre governabilidade ganhou força quando surgiu a pergunta se dá para governar o Centrão. Edileudo respondeu com franqueza: é difícil e está cada vez mais difícil, sobretudo com o fortalecimento do Congresso, o peso das emendas parlamentares e a dinâmica de partidos que ocupam espaços no governo, mas votam contra pautas do próprio Executivo. Para ele, há uma contradição que a população precisa encarar: muitas vezes se reivindica direitos e políticas públicas, mas se vota em parlamentares que, na prática, atuam contra essas agendas, citando reformas trabalhista e previdenciária como exemplos de medidas aprovadas por bancadas que, depois, continuam sendo reconduzidas ao poder.

Em seguida, o professor reforçou a ideia de que os governos do PT ajudaram a ampliar o horizonte de participação política de pessoas comuns, inclusive fora do próprio partido. Ele mencionou o surgimento de candidaturas alternativas e chapões formados por lideranças comunitárias como sinal de mudança social, ainda que, na visão dele, muitas dessas iniciativas não tenham formação política consistente e funcionem mais como reação à política tradicional do que como projeto estruturado.

Um dos trechos mais contundentes da entrevista apareceu quando Edileudo foi questionado sobre oligarquias na Paraíba e como romper a permanência de grupos familiares no poder. Ele citou exemplos de dinastias políticas e criticou a concentração de candidaturas dentro de uma mesma família como uma espécie de desrespeito à população e às novas lideranças que tentam emergir. Para ele, a saída passa por um ponto central: o eleitor não é obrigado a votar em pacote fechado e precisa exercer autonomia para quebrar ciclos hereditários, votando com liberdade e consciência.

Ao lembrar que foi candidato a prefeito, Edileudo afirmou que sua candidatura representou um ato de coragem e disse que, caso tivesse vencido, priorizaria decisões participativas, especialmente na educação. Defendeu que a comunidade escolar deveria ser ouvida sobre modelo de ensino, horários e formato de jornada. Também citou propostas para melhorar marcação de exames e fortalecer atenção básica na saúde, incentivar a permanência no campo com dignidade e acesso a serviços, e defendeu a proposta de tarifa zero no transporte coletivo, ressaltando que o tema vem ganhando espaço no debate nacional.

A entrevista também entrou no terreno eleitoral. Respondendo a pergunta de um participante do chat, Edileudo disse que o PT local tende a atuar para fortalecer a chapa federal e ampliá-la, mencionando nomes com atuação no estado e sinalizando que o objetivo é somar forças dentro da federação para tentar garantir mais representação. Ele revelou ainda que avalia colocar o próprio nome como pré-candidato a deputado estadual, não apenas por ambição pessoal, mas como estratégia para dar estrutura à campanha e criar condições de mobilização local, incluindo comitê, materiais e agenda permanente, fortalecendo ao mesmo tempo a candidatura de Lula, as majoritárias e principalmente o time de federal.

Questionado sobre o Senado, afirmou que a discussão ainda depende da orientação partidária, mas citou como caminho provável o apoio a João Azevêdo e Veneziano, condicionando a manutenção desse cenário a alinhamentos de palanque com Lula. Em outro ponto, comentou especulações sobre possíveis adesões à federação e disse que vê com bons olhos a chegada de quadros identificados com pautas progressistas, mas demonstrou preocupação com entradas oportunistas em legendas da federação sem compromisso real com o campo de esquerda. Ao ser perguntado sobre a aproximação de figuras vindas do bolsonarismo com lideranças petistas, foi direto ao dizer que, pessoalmente, não vê a ideia com bons olhos, considerando a mudança repentina.

No bloco final, o entrevistado avaliou a possibilidade de reeleição de Lula com otimismo, mas sem triunfalismo. Desenhou um cenário em que o país estaria dividido em blocos e destacou que uma parcela do eleitorado, os que podem ser convencidos, será decisiva. Para ele, o desafio passa por melhorar a comunicação do governo e do campo progressista, porque, apesar de entregas e políticas, ainda existe resistência consolidada em parte do eleitorado. Edileudo também comentou a tese de que Lula seria maior que o PT, reconhecendo o peso eleitoral do presidente, mas defendendo que sua liderança só se tornou possível pela construção coletiva, militante e capilar do partido ao longo de décadas.

Antes de encerrar, Edileudo falou de sua trajetória multifacetada, professor, sindicalista, dirigente partidário, ex-gestor no esporte, e reforçou que muitas responsabilidades não foram buscadas, mas surgiram por convocação de grupos e pela confiança construída. Ao citar a esposa, Rosimere, atribuiu a ela papel central no percurso político e pessoal, descrevendo-a como presença constante nas jornadas e campanhas.

A entrevista terminou com tom de balanço e perspectiva. Edileudo mencionou debates internos do PT pelos 46 anos do partido, citou pautas atuais em discussão no campo progressista, como tarifa zero e o debate sobre jornada 6×1, e insistiu na necessidade de fortalecer a comunicação e o vínculo com a população. O apresentador agradeceu, reforçou que o espaço ficará aberto para novas conversas e encerrou o programa convidando o público a acompanhar as próximas edições.

Link da Entrevista: