
No episódio 111 do Pode Conversar, o público conheceu mais de perto Sanção Ramalho, artista visual, psicólogo, psicanalista e mestre em filosofia. Reconhecido no cenário cultural de Patos-PB, ele participou de uma conversa densa e enriquecedora, que transitou por literatura, psicanálise, educação, religião, produção artística e os desafios de viver de arte no interior.
Logo no início, Sanção conectou psicanálise e literatura, lembrando que Freud foi profundamente influenciado por obras literárias e, ao mesmo tempo, utilizou narrativas clássicas como ferramenta para compreender o comportamento humano. Ele citou a presença da tragédia grega, de Shakespeare e de Dostoiévski como referências que ajudam a pensar a psicologia e a própria condição humana. Nesse percurso, destacou também como textos como O Alienista (Machado de Assis) continuam atuais por satirizarem práticas e discursos sobre adoecimento psíquico e controle social.
A conversa ganhou força quando Sanção fez questão de diferenciar o que é terapia e o que pode ser apenas terapêutico. Para ele, embora a arte, a escrita e até conversas possam produzir algum alívio, terapia é terapia — uma prática com método, objetivos e responsabilidade profissional. Na visão do convidado, confundir consumo cultural, hobbies e produção artística com tratamento psicológico pode reduzir o peso e a importância da clínica e do cuidado em saúde mental.
Sanção também trouxe uma crítica direta ao sistema educacional brasileiro, defendendo que o modelo atual trata estudantes como “produção em massa”, exigindo desempenho industrial e padronizado. Ele apontou que, diante da superlotação em salas e da falta de investimento, cresce a tendência de interpretar dificuldades de aprendizagem como necessariamente fruto de transtornos, quando muitas vezes o que falta é atenção individual, suporte pedagógico e condições reais de ensino. Em sua fala, a educação precarizada cria um cenário em que diagnósticos podem virar porta de acesso para direitos que deveriam existir sem depender de laudos.
Ao falar da própria trajetória, Sanção contou que desenha desde criança e que, como muitos, começou rabiscando cedo — mas o que o diferenciou foi não parar. Disse que havia colegas com mais habilidade, porém a persistência o levou a desenvolver um estilo vendável e a entender a arte também como trabalho. Desde jovem, ele já comercializava desenhos e outras coisas na escola, buscando autonomia financeira e aprendendo a se virar cedo.
Um trecho marcante foi quando ele compartilhou memórias familiares ligadas ao garimpo e ao artesanato com pedras. Sanção relatou que participou de processos de criação de quadros e seleção de materiais ao lado da família. A morte do pai, ainda na adolescência, foi apresentada como um divisor de águas, exigindo mais responsabilidade e reforçando sua visão de que, para muita gente, a vida profissional começa cedo — sem a “separação confortável” entre infância, juventude e trabalho que parte da sociedade imagina.
Sobre o sustento pela arte, Sanção explicou que demorou a conseguir retorno financeiro consistente. Segundo ele, foi mais a partir de 2018 que o trabalho artístico começou a se tornar mais viável economicamente, embora continue sendo um campo instável. Ele comentou também sua autocrítica constante: muitas obras passam por várias versões, com datas diferentes registradas, porque ele revisita, refaz e tenta alcançar um resultado que considere justo.
A entrevista entrou ainda no debate sobre editais culturais e financiamento. Sanção explicou que muitos artistas dependem de incentivos e concursos e reforçou que há muita desinformação sobre leis e políticas culturais, como a Lei Rouanet, frequentemente tratada de maneira distorcida no senso comum. Para ele, o problema não é existir incentivo, e sim a falta de compreensão social de que cultura é trabalho, produz impacto e precisa de estrutura.
Um dos pontos mais curiosos foi quando Sanção falou de seu livro e do uso de figuras do imaginário religioso e cultural brasileiro, articulando sincretismo, crítica social e humor. Ele comparou o Brasil com culturas que possuem grandes epopeias e sugeriu que sua obra busca brincar com esse vazio simbólico, criando uma espécie de sátira moderna atravessada por filosofia, religião, política e identidade nacional. Na conversa, ele citou personagens e ideias que dialogam com autores como Mário de Andrade e com leituras antropológicas, reforçando o caráter crítico do projeto.
Quando entrou no tema religião, Sanção afirmou ser ateu, mas deixou claro que isso não significa intolerância. Pelo contrário, demonstrou familiaridade com tradições diversas e usou a filosofia para explicar como conceitos existem culturalmente, mesmo quando não existem fisicamente. Ele trouxe exemplos ligados à linguagem e ao simbolismo — defendendo que parte do que entendemos como “real” é mediado por construções simbólicas, e que o debate filosófico ajuda justamente a separar crença, poder, cultura e história.
Ao trazer a discussão para Patos, Sanção descreveu a principal dificuldade do artista local em uma palavra: reconhecimento — entendido por ele como algo bem concreto: aceitar que a arte tem valor e merece ser paga. Ele criticou a cultura de pedir trabalho gratuito, parcelar valores baixos em muitas vezes e tratar o artista como alguém que vive de “dom”, como se não tivesse custo de material, tempo, técnica e sobrevivência. Também apontou que a classe artística, muitas vezes, é desunida, o que enfraquece a luta por melhores condições.
Mesmo assim, Sanção reconheceu que há público e há apoio, e que parte de suas contas hoje é paga com arte. Ele explicou ainda as diferenças entre áreas como cartum, quadrinhos, caricatura e pintura, afirmando que atua em várias frentes: faz caricaturas, ilustra livros, cria telas para exposições, produz tirinhas e trabalha com encomendas sob demanda — incluindo projetos de coletivos culturais e publicações.
Um dos momentos mais sensíveis foi quando Sanção contou que já realizou trabalhos para pessoas com deficiência visual, usando técnicas como pontilhismo e variação de relevo para permitir leitura pelo tato. A experiência o levou a uma reflexão importante: a arte não é a coisa em si, mas uma representação — e ainda assim, comunica, aproxima e produz sentido, inclusive para quem acessa o mundo por outras vias sensoriais.
No encerramento, Sanção reforçou a importância de políticas culturais reais, espaços de permanência em exposições e eventos que valorizem o público e o artista. Citou exemplos de como cultura pode movimentar economia e identidade social e defendeu que incentivar arte não é luxo, mas investimento.
Por fim, ele deixou aberto o contato com seu trabalho, afirmando que está disponível para encomendas de caricaturas, quadros, ilustrações (capa e miolo), tirinhas e projetos personalizados, além da atuação como psicólogo e psicanalista e o interesse em seguir na docência. A participação de Sanção Ramalho no Pode Conversar foi, acima de tudo, um episódio sobre cultura como resistência: uma conversa que mostrou que fazer arte no Brasil exige técnica, estudo, persistência e coragem — especialmente quando o reconhecimento ainda é uma batalha diária.
Entrevista Completa: