Nalvinha Nunes: uma vida revelada pela fotografia
A fotografia não entrou por acaso na vida de Nalvinha Nunes. De certa forma, ela já estava lá antes mesmo dela. Dentro de casa, nas câmeras do pai, no laboratório, no cheiro dos produtos químicos e na curiosidade de uma menina que cresceu observando imagens surgirem diante dos olhos. Foi assim que começou uma história que atravessaria décadas.
Em entrevista ao Pode Conversar, realizada nesta sexta-feira (21), Nalvinha abriu o baú das memórias e falou de profissão, família, mudanças tecnológicas, clientes que se tornaram amigos e de uma relação com a fotografia que começou ainda na adolescência.
Aos 16 anos, ela já trabalhava como assistente do pai. Mas o desejo de fotografar vinha acompanhado de outro sonho: estudar Jornalismo. Nalvinha contou que, ainda na escola, quando uma professora perguntou qual profissão pretendia seguir, a resposta já estava pronta: queria fazer Jornalismo e ser fotógrafa. O destino, como ela mesma definiu durante a conversa, acabou levando seus passos para a fotografia social.
A profissão fazia parte da rotina da família. O pai ensinava os filhos e, conforme os mais velhos seguiam outros caminhos, os mais novos assumiam responsabilidades no trabalho. Entre os irmãos, Nalvinha, Fran e Valdemir permaneceram mais próximos da fotografia.
Uma das lembranças mais curiosas dos primeiros trabalhos aconteceu ainda na adolescência. Durante um evento ao lado do pai, uma solução utilizada nos equipamentos começou a cair em sua roupa e danificar o tecido. Nalvinha tentava avisá-lo, mas o trabalho não podia parar. No fim, precisou amarrar a saia para conseguir terminar o serviço. A história, contada entre risadas, ficou guardada como uma das primeiras memórias de quem começava a descobrir o ritmo e as responsabilidades da profissão.
Mas foi uma situação inesperada que colocou Nalvinha, pela primeira vez, diante da responsabilidade de realizar um grande trabalho sem a companhia do pai. Ele havia fotografado uma colação de grau e, adoentado, não tinha condições de seguir para o compromisso da noite. Nalvinha perguntou se ele confiava nela para assumir o serviço. A resposta foi positiva.
Ela foi e encontrou um ambiente em que os fotógrafos eram, em sua maioria, homens. “Só eu de mulher”, relembrou. Nalvinha fez o trabalho e voltou para casa com a certeza de que era capaz de seguir também com as próprias pernas. Para ela, aquele momento foi uma espécie de empurrão do destino.
Em tempos muito anteriores às redes sociais, conquistar clientes tinha outro ritmo. Não havia Instagram para divulgar cada ensaio minutos depois. O reconhecimento era construído principalmente de boca em boca. Foi dessa maneira que Nalvinha viu seu nome crescer. Clientes indicavam seu trabalho para outras pessoas, destacavam a forma leve com que ela conduzia os ensaios e, pouco a pouco, sua agenda começou a ficar cheia. Ela própria reconhece que esse crescimento foi acontecendo de maneira tão natural que muitas vezes nem percebeu a dimensão que o trabalho havia alcançado.
Mesmo depois de tantos anos, Nalvinha afirma que continua estudando e buscando aperfeiçoamento. Além da fotografia, também tem formação em Administração e diz usar esse conhecimento na gestão do próprio negócio. Na hora de definir preços, afirma pensar também na realidade dos clientes. Para ela, investir em cursos e equipamentos deve significar melhorar a qualidade do serviço oferecido, e não simplesmente transferir todo o custo imediatamente para quem procura o estúdio. “Eu penso muito no meu cliente”, resumiu.
Falar da trajetória de Nalvinha é também acompanhar parte da transformação da própria fotografia. Ela cresceu vendo o pai trabalhar com filmes, reveladores, fixadores e processos completamente manuais. “Eu nasci vendo. A fotografia nasceu primeiro do que eu na minha casa”, contou.
O pai mantinha um laboratório e dominava processos que exigiam conhecimento, precisão e paciência. Mesmo sem ter tido acesso à educação formal, segundo Nalvinha, ele buscava aprender cada vez mais sobre a profissão e realizava inclusive montagens fotográficas manualmente, utilizando negativos e técnicas de laboratório.
Com a chegada da fotografia digital, tudo mudou. O laboratório analógico perdeu espaço, os equipamentos digitais eram caros e o pai tentou acompanhar a nova realidade. Comprou computador, câmera e buscou aprender, mesmo já com mais idade. Em determinado momento, percebeu que aquela nova etapa deveria ficar com os filhos. Foi então que Nalvinha conseguiu realizar um sonho que também havia sido do pai: adquirir um laboratório digital para o trabalho da família.
Durante a entrevista, Nalvinha revelou ainda um lado menos conhecido de sua trajetória. Antes de se dedicar principalmente aos eventos sociais, ela teve experiências próximas da fotografia jornalística e chegou a registrar ocorrências policiais.
Uma dessas experiências marcou profundamente sua vida. Ao participar da cobertura da morte do radialista Paulo Porto, que ela conhecia e admirava, voltou para casa profundamente abalada. A imagem permaneceu em sua cabeça por dias. Foi quando percebeu que queria seguir outro caminho. Ela decidiu procurar uma fotografia que estivesse mais associada à alegria, aos encontros e às boas lembranças.
A partir daí, aprofundou-se na fotografia social, fez cursos e buscou especializações. Trabalhou com aniversários de 15 anos, casamentos, ensaios externos, crianças, formaturas e diferentes momentos importantes da vida de muitas famílias.
Entre tantas histórias contadas, talvez uma das frases que melhor explique a relação de Nalvinha com a fotografia seja simples: “70% da minha amizade vem da fotografia.”
Quando ainda era jovem, ela saía de bicicleta para fotografar crianças na casa dos clientes. Muitas vezes chegava antes mesmo de a criança estar pronta. Ajudava a arrumar, brincava, conversava com as famílias e transformava aquele trabalho em convivência.
O tempo passou. Algumas das crianças que fotografou cresceram. Depois vieram os irmãos. Mais tarde, os filhos. Hoje, em alguns casos, Nalvinha já fotografa os netos daqueles primeiros clientes. São gerações acompanhadas por uma mesma lente.
E talvez esteja justamente aí uma das partes mais humanas de sua trajetória: para Nalvinha, uma fotografia nunca foi apenas o instante de apertar um botão. Ao longo dos anos, o trabalho criou vínculos que permaneceram mesmo depois que as câmeras foram guardadas.
A chegada da inteligência artificial também entrou na conversa. Nalvinha não rejeita a tecnologia. No estúdio, contou que utiliza recursos de IA para tarefas específicas que ajudam a economizar tempo, como a retirada de reflexos em óculos. Mas faz uma distinção clara entre utilizar a tecnologia como ferramenta e criar uma imagem que descaracterize completamente uma pessoa.
Para ela, tratamentos podem melhorar uma fotografia, mas não deveriam apagar identidade, personalidade ou características reais de quem está diante da câmera. “Nada vai substituir o real”, afirmou.
É uma visão que combina com toda a trajetória contada durante a entrevista. Nalvinha passou pelo filme, pelo laboratório químico, pela chegada do computador, pelas câmeras digitais e agora acompanha uma nova transformação tecnológica. As ferramentas mudaram. Para ela, porém, a essência continua na pessoa fotografada.
Depois da pandemia, Nalvinha também decidiu mudar o ritmo de trabalho. Durante muitos anos, fez grandes casamentos, formaturas e eventos que começavam ainda durante a tarde e terminavam de madrugada. Às vezes, poucas horas depois, já havia outro compromisso esperando. Até que o corpo começou a cobrar.
A experiência da pandemia também trouxe uma nova percepção sobre tempo, família e prioridades. Nalvinha decidiu desacelerar. Passou a reduzir os grandes eventos e encontrou na fotografia infantil uma forma de continuar fazendo aquilo que ama sem abrir mão de estar mais perto do esposo e dos filhos.
Hoje, são as crianças que ocupam um espaço especial em sua rotina profissional. É ali, diante de um sorriso espontâneo e da felicidade de uma família ao receber uma fotografia, que ela diz encontrar um dos maiores prazeres da profissão.
Depois de quase quatro décadas entre câmeras, eventos, estúdios, filmes e arquivos digitais, Nalvinha não fala em abandonar a fotografia. Ao contrário.
No encerramento da entrevista, resumiu o que pretende continuar fazendo: receber seus clientes, entregar o melhor de si e “eternizar histórias”.
Talvez seja exatamente isso que explique sua caminhada. Nalvinha passou grande parte da vida registrando aniversários, casamentos, crianças, famílias e momentos que não voltam. No processo, enquanto ajudava tantas pessoas a preservar suas próprias memórias, também construiu a dela.
Uma história revelada, fotografia por fotografia.
Entrevista Completa: