Entre medicina, fé, esporte e política: Umberto Joubert conta sua trajetória no Pode Conversar
O médico Umberto Joubert de Moraes de Lima foi o convidado do Pode Conversar na noite desta sexta-feira (28), em Patos. Em uma entrevista que ultrapassou uma hora, a conversa percorreu diferentes momentos de sua vida e revelou muito mais do que sua trajetória profissional na medicina. Entre histórias da infância, ensinamentos recebidos do pai, experiências profissionais, cuidados com a saúde, envolvimento com a Igreja, organização da Corrida de Nossa Senhora da Guia e política, Umberto falou de maneira espontânea sobre os caminhos que o trouxeram até aqui.
Logo no início da entrevista, Umberto demonstrou estar à vontade com a proposta do programa, que busca conhecer trajetórias e permitir que os convidados conversem sobre diferentes aspectos de suas vidas. Um dos primeiros assuntos foi a Corrida de Nossa Senhora da Guia, marcada para este domingo, dia 30 de agosto, e que integra o início das celebrações da tradicional festa da padroeira de Patos.
Umberto faz parte da organização do evento e fez questão de destacar que a realização da corrida é fruto de um trabalho coletivo. Segundo ele, integrantes da Igreja, voluntários, membros do EJC, empresários, patrocinadores e apoiadores dividem responsabilidades para que toda a estrutura funcione. A preparação para esta edição começou ainda no mês de março. Depois da experiência realizada no ano passado, que reuniu aproximadamente 400 participantes, o evento cresceu e chegou à marca de 600 inscrições em 2026, levando a organização a encerrar antecipadamente o cadastro de participantes.
A concentração acontece a partir das 5h, na região da Concha Acústica, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Antes da largada haverá aquecimento, com previsão de início da corrida por volta das 5h50. Além da corrida principal, haverá caminhada de três quilômetros e participação das crianças. Ao falar sobre o público infantil, Umberto destacou que a proposta é principalmente incentivar o contato com o esporte e proporcionar um momento de confraternização. Algumas crianças farão percursos maiores, enquanto outras poderão percorrer apenas alguns metros, mas todas terão a oportunidade de participar.
Segundo Umberto, a expectativa é de que mais de 1.500 pessoas circulem pelo local, considerando atletas, familiares, voluntários e público. A programação também contará com música e premiação para os primeiros colocados. Ele destacou ainda a participação de corredores de municípios como São José do Egito, Caicó, Várzea, São Mamede, Santa Luzia, Pombal, Cajazeiras e Campina Grande.
Quando a conversa passou do esporte para a vida pessoal, surgiram alguns dos momentos mais humanos da entrevista. Umberto contou que cresceu cercado pela área da saúde. O pai, Humberto Marinho, é médico cirurgião, enquanto a mãe, Nilda Moraes, é enfermeira. Os irmãos também seguiram caminhos ligados à medicina. Um deles tornou-se pediatra e outro ortopedista.
Apesar dessa forte ligação familiar com a saúde, Umberto afirmou que um dos ensinamentos mais importantes recebidos do pai estava relacionado ao estudo. Ele relembrou que o pai costumava dizer aos filhos que não era empresário, fazendeiro ou construtor e que, portanto, não teria empresas, fazendas ou imóveis para deixar como herança. O que poderia oferecer era educação. O mesmo pensamento aparecia quando os filhos falavam sobre o desejo de viajar. Segundo Umberto, o pai dizia que um dia eles viajariam com as próprias pernas, depois de estudar, trabalhar e conquistar o próprio dinheiro.
Anos depois, essa frase continuou presente em sua memória. Umberto contou que somente recentemente realizou, ao lado da esposa, uma viagem à Europa, explicando que outras prioridades fizeram parte da vida do casal ao longo dos anos. Para ele, esse processo também representa o modo como foi criado e como aprendeu a valorizar cada conquista.
Nascido em São Mamede, Umberto passou parte da infância no município, inclusive vivendo por um período na zona rural. Depois, a família mudou-se para Patos, onde ele morou inicialmente próximo ao bairro de Fátima e posteriormente no Salgadinho. Sua trajetória também passou por João Pessoa, Rio de Janeiro e Rio Branco, no Acre, onde serviu ao Exército e tornou-se segundo-tenente R2.
Apesar de ter nascido em São Mamede, Umberto costuma dizer que é patoense de coração. Ao longo de sua trajetória profissional, também construiu vínculos com outras cidades e destacou com orgulho os títulos de cidadania que recebeu em Patos, Pombal, Santa Luzia e Coremas, municípios onde trabalhou ou mantém relações construídas ao longo dos anos.
Na medicina, Umberto atua há cerca de duas décadas na dermatologia. Durante a entrevista, explicou que problemas como melasma, acne e queda de cabelo estão entre as situações mais frequentes encontradas no consultório. Ao mesmo tempo, ressaltou que cada paciente precisa ser avaliado individualmente e que uma mesma queixa pode ter diferentes causas.
Ao falar sobre queda de cabelo, por exemplo, explicou que fatores genéticos, nutricionais, hormonais, autoimunes e até questões relacionadas à saúde mental podem estar envolvidos. Por isso, segundo ele, não existe uma receita única que possa ser aplicada a todos os pacientes. Em algumas situações, exames laboratoriais ou avaliações mais específicas são necessários para identificar corretamente a origem do problema.
Umberto também destacou a importância da atualização permanente na medicina. Mesmo depois de anos de atuação, afirmou que participa de congressos e acompanha novos tratamentos para oferecer aos pacientes alternativas baseadas no avanço da área. Para ele, a medicina muda constantemente e o profissional não pode deixar de acompanhar essas transformações.
A conversa também ganhou um importante caráter educativo. Questionado sobre quando uma pinta ou mancha na pele deve gerar preocupação, Umberto explicou o chamado método ABCDE, que observa assimetria, bordas, cor, diâmetro e evolução da lesão. Segundo ele, uma das principais situações que exigem atenção é quando uma pinta que permaneceu estável durante anos começa a mudar de tamanho, formato ou coloração.
O dermatologista também falou sobre vitiligo, hanseníase, sífilis, HIV e outras condições que podem apresentar manifestações na pele. Nesse ponto da entrevista, relembrou sua experiência no Centro de Testagem e Aconselhamento de Patos, onde trabalhou durante um período e teve contato direto com pacientes diagnosticados com infecções sexualmente transmissíveis.
Umberto defendeu o diagnóstico precoce, o acesso ao tratamento e, principalmente, a redução do preconceito relacionado a determinadas doenças. Ele contou casos vivenciados no consultório nos quais uma queixa aparentemente dermatológica levou à identificação de outros problemas de saúde. Em uma dessas situações, uma paciente procurou atendimento por causa de queda de cabelo e coceira. A observação das lesões e a conversa durante a consulta levaram à realização de exames e ao diagnóstico de sífilis.
Para Umberto, situações como essa mostram a importância da escuta durante uma consulta. Ele ressaltou que o médico precisa conhecer o histórico do paciente e fazer perguntas que, em alguns casos, podem envolver aspectos mais íntimos da vida da pessoa. Por isso, destacou também a importância do sigilo profissional.
Segundo ele, o paciente precisa se sentir seguro para falar com sinceridade, principalmente quando determinadas informações podem contribuir para o diagnóstico. Umberto afirmou ainda que busca preservar essa relação também fora do consultório e que deixa o próprio paciente decidir se deseja ou não demonstrar publicamente que o conhece.
Outro ponto abordado foi a relação entre a pele e doenças que atingem outras partes do organismo. Umberto explicou que determinadas alterações dermatológicas podem servir como sinais de problemas metabólicos. O diabetes foi um dos exemplos mencionados. Segundo ele, ressecamento intenso da pele e determinadas alterações de coloração ou espessamento podem indicar a necessidade de investigação para resistência à insulina e alterações glicêmicas. Nesses casos, o tratamento não deve se limitar apenas à mancha ou à alteração visível, mas precisa buscar a causa do problema.
Depois da medicina e do esporte, a entrevista entrou também na política, área que faz parte da história familiar de Umberto. Ele contou que seu avô, Otacílio Bento, foi prefeito de São Mamede. O pai também participou da vida pública, tendo sido vice-prefeito em São Mamede e posteriormente prefeito de Santa Luzia. O irmão mais novo, Humberto Jefferson, também foi prefeito de São Mamede por dois mandatos.
Umberto relembrou uma situação da juventude que, segundo ele, ajudou a formar sua visão sobre o serviço público. Na época em que o pai exercia mandato, ele e o irmão precisavam sair cedo de Santa Luzia para estudar em Patos utilizando o mesmo transporte que outros estudantes. Quando questionaram por que o pai, sendo prefeito, não disponibilizava um motorista para eles, ouviram que não eram diferentes de ninguém. Para Umberto, esse episódio deixou uma lição sobre responsabilidade e respeito pelo que é público.
A participação direta de Umberto em uma disputa eleitoral aconteceu em 2020, quando foi candidato a vice-prefeito de Patos na chapa encabeçada por Ramonilson Alves. Durante a entrevista, ele falou abertamente sobre esse período e afirmou que a experiência lhe trouxe aprendizado. Também reconheceu que, com o passar do tempo, passou a fazer uma avaliação diferente sobre algumas decisões daquele momento.
Posteriormente, Umberto voltou a se aproximar do grupo político liderado por Nabor Wanderley. Em 2024, sua esposa, a médica Perla Gadelha, disputou uma vaga na Câmara Municipal de Patos. Segundo Umberto, o convite para que ela participasse da eleição partiu do então prefeito Nabor.
A candidatura começou praticamente sem uma estrutura eleitoral consolidada na cidade. Umberto contou que boa parte de sua família mantinha vínculos políticos mais fortes em São Mamede e que Perla nunca havia disputado uma eleição. A campanha foi construída principalmente a partir de amizades, relações profissionais, pessoas ligadas à Igreja e conhecidos do casal.
Perla terminou a eleição com 949 votos. Umberto relembrou que, durante boa parte da campanha, o nome da esposa praticamente não aparecia nas pesquisas eleitorais. Diante da preocupação dela, costumava dizer que o nome estava no coração das pessoas. A resposta de Perla, contada em tom descontraído durante a entrevista, era que estar no coração sem aparecer na urna não seria suficiente. A partir daí, segundo ele, o grupo intensificou o contato direto com os eleitores.
A experiência levou a conversa ao tema das pesquisas eleitorais. Umberto afirmou que acompanha levantamentos, mas defendeu cautela na interpretação dos números. Também alertou para a importância de verificar se as pesquisas estão devidamente registradas na Justiça Eleitoral antes de qualquer divulgação.
Na avaliação dele, uma pesquisa representa determinado momento da disputa e não deve ser interpretada como resultado definitivo. Durante a entrevista, foram lembrados exemplos históricos da política paraibana em que candidatos conseguiram alterar significativamente suas posições até o dia da eleição. Umberto também criticou a ideia de escolher um candidato apenas porque ele aparece na liderança de uma pesquisa e defendeu que o eleitor analise trajetória, atuação e propostas.
Ao analisar o cenário político de 2026, Umberto também comentou possíveis movimentos entre diferentes grupos da política paraibana. Ele avaliou que aliados ligados a outros campos políticos podem direcionar um dos votos para o Senado ao candidato Nabor Wanderley. A afirmação foi apresentada como uma opinião pessoal do entrevistado sobre o atual cenário eleitoral.
Umberto também reconheceu que a política pode mudar rapidamente e resumiu essa imprevisibilidade com uma frase dita durante o programa: na política, tudo pode acontecer, inclusive nada.
No encerramento do bloco político, ele foi questionado diretamente sobre os candidatos que apoia nas eleições deste ano. Umberto declarou apoio a uma chapa formada por Olívia Motta para deputada estadual, Hugo Motta para deputado federal, Nabor Wanderley e João Azevêdo para o Senado e Lucas Ribeiro para o Governo da Paraíba. Segundo ele, esse é o conjunto de candidatos defendido pelo grupo político do qual participa atualmente.
Ao final da entrevista, Umberto agradeceu o convite, elogiou o trabalho realizado pelo Pode Conversar e destacou a importância de Patos possuir novos espaços de comunicação capazes de levar informação e orientação à população da cidade e da região. Também deixou aberta a possibilidade de retornar ao programa em outra oportunidade.
A conversa mostrou diferentes lados de uma mesma trajetória. O médico que fala sobre diagnóstico e cuidado é também o homem que recorda os ensinamentos recebidos do pai, o integrante da comunidade que ajuda na organização de um evento religioso e esportivo e alguém que cresceu acompanhando de perto a política.
Mais do que uma entrevista sobre medicina, corrida ou eleições, o encontro com Umberto Joubert acabou sendo uma conversa sobre família, escolhas, trabalho, serviço, pertencimento e os caminhos construídos ao longo da vida.
Entrevista Completa: