Advogada, professora e doutoranda compartilhou experiências pessoais, defendeu o fortalecimento das políticas públicas e destacou o papel da educação no combate à violência. Entrevista também abordou inteligência artificial, participação feminina na política e os desafios da Justiça.

O Pode Conversar recebeu, na noite desta sexta-feira (30), a advogada, professora, doutoranda e ativista dos direitos das mulheres Gerlânia Medeiros, para uma entrevista marcada por reflexões, relatos pessoais e discussões sobre temas que fazem parte da realidade de milhares de brasileiras. Durante a conversa, conduzida pelo professor e apresentador Francisco Anderson, Gerlânia abordou o enfrentamento à violência doméstica, as dificuldades enfrentadas por mulheres para romper relacionamentos abusivos, a importância das políticas públicas de proteção e o papel da sociedade na construção de uma realidade mais justa.

O encontro também abriu espaço para debates sobre educação, desigualdade de gênero, participação feminina nos espaços de poder, regulamentação das redes sociais e os impactos da inteligência artificial. Logo no início da entrevista, a convidada revelou que sua atuação na defesa das mulheres não está relacionada apenas à formação acadêmica e à experiência profissional, mas também à sua própria história de vida.

“Eu sou professora sobre esses direitos, eu sou advogada nessa área e eu sou vítima de violência”, declarou. Segundo Gerlânia, falar publicamente sobre o assunto representa uma responsabilidade, especialmente porque outras mulheres podem se identificar com os relatos e encontrar coragem para buscar ajuda.

Violência doméstica e as dificuldades para romper o ciclo

Um dos principais momentos da entrevista foi dedicado às razões que levam mulheres a permanecerem em relacionamentos abusivos. De acordo com Gerlânia, a dependência financeira e a dependência emocional estão entre os fatores que dificultam o rompimento desses vínculos. Ela explicou que muitas vítimas não possuem condições econômicas para manter a própria casa ou sustentar os filhos sem o apoio do companheiro.

Por outro lado, também existem mulheres financeiramente independentes que permanecem em relacionamentos violentos por medo da solidão, pressão familiar, julgamentos sociais ou dificuldades emocionais. A advogada ressaltou que a violência doméstica não se limita às agressões físicas. A Lei Maria da Penha também reconhece situações de violência psicológica, moral, sexual e patrimonial.

Entre os exemplos apresentados, estão o controle do salário da mulher pelo companheiro, a retenção de bens, as humilhações constantes e as relações sexuais sem consentimento. Para a entrevistada, é necessário combater a ideia de que a vítima permanece em uma relação violenta simplesmente porque deseja.

Ela também alertou para a reprodução de discursos familiares, culturais e religiosos que podem pressionar mulheres a manter relacionamentos prejudiciais em nome da preservação da família.

Proteção às mulheres precisa funcionar na prática

Ao avaliar as políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher, Gerlânia reconheceu avanços importantes, mas destacou que a existência de leis não significa, necessariamente, proteção efetiva. A convidada citou a Patrulha Maria da Penha como uma iniciativa positiva do Governo da Paraíba. Ela relembrou sua participação, em 2023, na formação de policiais militares vinculados ao programa, em Cajazeiras, quando ministrou conteúdos relacionados aos direitos humanos.

Durante a entrevista, elogiou a preparação dos profissionais e defendeu a ampliação do serviço para alcançar um número maior de municípios do interior paraibano. Entretanto, também chamou a atenção para dificuldades enfrentadas por delegacias especializadas, principalmente relacionadas à disponibilidade de servidores e à estrutura de atendimento.

Em Patos, foram mencionados equipamentos e instituições que integram a rede de proteção, como o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), a Secretaria da Mulher, o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e a Patrulha Maria da Penha.

Para Gerlânia, além da proteção policial e judicial, é necessário oferecer acolhimento psicológico, assistência jurídica, oportunidades de emprego e condições para que mulheres em situação de vulnerabilidade possam reconstruir suas vidas. Ela também explicou que mulheres sem condições de contratar um advogado podem procurar a Defensoria Pública, os núcleos de prática jurídica das instituições de ensino e os serviços de assistência social dos municípios.

Experiências pessoais e a luta por justiça

Um dos momentos mais sensíveis da entrevista aconteceu quando Gerlânia compartilhou experiências relacionadas à sua própria trajetória. A advogada revelou que enfrenta dificuldades judiciais decorrentes de seu processo de divórcio e relatou situações que, segundo ela, envolveram violência patrimonial.

A entrevistada também falou sobre a morosidade da Justiça e as dificuldades que mulheres enfrentam para garantir direitos relacionados à partilha de bens. Ao abordar sua experiência profissional no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), relembrou o atendimento a uma mulher que havia sofrido episódios graves de violência desde a infância.

O caso, descrito pela convidada como um dos mais marcantes de sua carreira, envolveu agressões severas praticadas pelo companheiro contra uma jovem mãe. Gerlânia afirmou que a situação provocou forte impacto emocional e contribuiu para sua decisão de deixar aquela função.

A partir dessas experiências, a advogada passou a intensificar sua atuação nas redes sociais, utilizando os espaços digitais para compartilhar informações sobre direitos, orientar mulheres e estimular a busca por acolhimento. Para ela, o primeiro papel de familiares e amigos diante de uma mulher que relata violência deve ser ouvir, acolher e ajudar a encontrar caminhos seguros, sem julgamentos ou culpabilização.

Participação feminina na política e desigualdade de gênero

A participação das mulheres na política também ganhou destaque durante a entrevista. Gerlânia criticou discursos que, segundo sua avaliação, procuram diminuir direitos conquistados historicamente e reforçar padrões de desigualdade entre homens e mulheres.

A advogada destacou que, apesar dos avanços, a presença feminina nos espaços de decisão ainda é limitada, tanto na administração pública quanto na iniciativa privada. Durante a conversa, foram discutidas a baixa representatividade feminina no Congresso Nacional, a presença de mulheres nos tribunais e as dificuldades enfrentadas por candidatas durante os processos eleitorais.

Gerlânia também abordou as chamadas candidaturas fictícias, utilizadas por algumas organizações partidárias para simular o cumprimento das cotas de gênero. Para ela, não basta garantir a presença de mulheres nas listas de candidatos. É necessário oferecer condições reais para que possam disputar eleições e ocupar espaços de poder.

A entrevistada também comentou uma decisão recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), relacionada à inelegibilidade em casos de condenação por violência doméstica, defendendo maior responsabilidade dos partidos na escolha de seus representantes.

Gerlânia comenta possibilidade de disputar eleições

Em outro momento da entrevista, Francisco Anderson questionou Gerlânia sobre a possibilidade de ingressar diretamente na política partidária e disputar algum cargo eletivo. A advogada revelou que acompanha a política desde a infância e que possui afinidade com ideias de esquerda. Entretanto, explicou que não pretende, neste momento, apresentar seu nome para uma candidatura.

Segundo ela, a falta de estrutura financeira, de apoio político e o próprio funcionamento das disputas eleitorais são fatores que dificultam essa possibilidade.

“Eu tenho a certeza de que a gente não precisa estar em cargos eletivos para fazer a política que a gente quer”, afirmou.

Questionada se já havia recebido algum convite de partido político para disputar eleições, Gerlânia respondeu que não. Apesar disso, destacou que considera a política um instrumento importante de transformação social e que prefere contribuir por meio da educação, da advocacia, dos debates públicos e da participação em iniciativas voltadas à garantia de direitos.

Inteligência artificial, redes sociais e responsabilidade digital

A entrevista também abordou um assunto cada vez mais presente no cotidiano: a regulamentação da inteligência artificial e das grandes plataformas digitais. Questionada pelo apresentador, Gerlânia se posicionou favoravelmente à criação e ao fortalecimento de regras que estabeleçam responsabilidades no ambiente virtual.

A advogada destacou que a liberdade de expressão deve ser respeitada, mas não pode servir como justificativa para práticas criminosas, ataques à honra ou violações de direitos. Entre os exemplos discutidos estavam a utilização de inteligência artificial para reproduzir vozes, criar conteúdos falsos, aplicar golpes e produzir materiais que exponham indevidamente a imagem de outras pessoas.

Gerlânia também chamou a atenção para situações em que as tecnologias podem reproduzir discriminações já existentes na sociedade, inclusive contra mulheres. Apesar das preocupações, ressaltou que não é contrária ao desenvolvimento tecnológico. Pelo contrário, reconheceu sua importância para ampliar o acesso à educação, à informação e ao conhecimento.

Para a entrevistada, o principal desafio está em garantir que as ferramentas sejam utilizadas de maneira responsável e que eventuais danos provocados por seu uso possam ser devidamente apurados.

O papel dos homens, da família e da sociedade

Outro ponto importante da conversa foi a necessidade de envolver os homens no enfrentamento à violência contra a mulher. Gerlânia defendeu que o combate ao machismo e às agressões não pode ser uma responsabilidade exclusiva das mulheres.

Na avaliação da advogada, os homens também precisam se posicionar contra discursos violentos, combater comportamentos discriminatórios e contribuir para que o respeito seja ensinado desde a infância. O apresentador Francisco Anderson destacou a importância da educação familiar e da transmissão desses valores aos filhos.

A convidada concordou, ressaltando que os exemplos observados dentro de casa podem influenciar profundamente a maneira como crianças e adolescentes compreendem as relações humanas. Ela também reforçou a importância do acolhimento familiar às vítimas e da participação de toda a sociedade na prevenção da violência.

“A pauta de defesa dos direitos das mulheres é contínua e diária”

Na reta final do programa, Gerlânia deixou uma mensagem sobre a necessidade de manter o debate sobre os direitos das mulheres durante todo o ano. A advogada observou que frequentemente recebe convites para falar sobre o assunto apenas em períodos específicos, como março, mês dedicado às mulheres, e agosto, quando ocorre a campanha Agosto Lilás.

Entretanto, destacou que a violência não está limitada a determinados momentos do calendário.

“A pauta de defesa pelos direitos das mulheres é contínua e diária”, afirmou.

A convidada reforçou que a defesa da dignidade humana deve ultrapassar diferenças ideológicas e partidárias, envolvendo homens, mulheres, instituições públicas e a sociedade em geral. Gerlânia também agradeceu o convite do Pode Conversar e parabenizou a iniciativa de abrir espaço para discussões sobre temas considerados importantes, mesmo quando envolvem opiniões divergentes.

A entrevista terminou com um convite à reflexão sobre o papel de cada cidadão na construção de uma sociedade mais respeitosa, justa e comprometida com os direitos humanos. O episódio integra a proposta do Pode Conversar de promover entrevistas, debates e discussões sobre política, educação, cidadania e questões sociais, dando espaço a diferentes experiências e perspectivas.

Redação: Pode Conversar – Francisco Anderson