Na noite da sexta-feira, 02 de janeiro, às 19h, o Pode Conversar deu início à temporada 2026 com a participação de Laryssa Cristiny, empreendedora, jornalista de formação e CEO da Camponaria, marca patoense especializada em móveis produzidos em madeira de pinus. Em um bate-papo longo, espontâneo e profundo, Laryssa compartilhou sua trajetória pessoal, profissional e espiritual, revelando os bastidores de um negócio que nasceu dentro de casa e hoje ocupa espaço no centro da cidade.

Logo no início, ao se apresentar, Laryssa foi direta e acolhedora: “Eu sou Larissa Cristiny e a gente tá com a Camponaria. Nossa loja fica na Rua Dom Pedro II, no centro de Patos, pertinho do Moinho Patoense. A gente trabalha com estantes, sapateiras, tudo que você imaginar que possa ser feito de madeira de pinus, a gente faz.” A fala resume bem a proposta da marca: simplicidade, funcionalidade e personalização.

Ela contou que a loja física foi aberta em maio de 2025, mas que a história começou muito antes, ainda de forma totalmente despretensiosa. “Quando a gente casou, eu e Júnior só tínhamos uma cama e um guarda-roupa. Eu disse: ‘a gente precisa de uma cabeceira, não aguento mais bater a cabeça na parede’.” Foi nesse momento que o talento manual do esposo apareceu. Segundo Laryssa, Júnior já mexia com madeira desde criança e começou fazendo uma sapateira, depois a cabeceira, depois uma luminária. O que era solução doméstica virou curiosidade entre familiares e amigos. “Daqui a pouco já tinham uns dez pedidos. Aí eu disse: ‘Júnior, como é que a gente vai pagar isso? Vamos ter que começar a cobrar’.”

Os pedidos foram crescendo, as ideias ficando cada vez mais diferentes — inclusive uma luminária em formato de ser humano — e Laryssa decidiu usar aquilo que já dominava: comunicação. “Eu sempre fui metida a influenciadora. Aí comecei a filmar tudo que ele fazia e postar.” O resultado foi surpreendente. A página chegou a mais de 43 mil seguidores, com vídeos alcançando milhões de visualizações. No entanto, o sucesso trouxe um problema inesperado: o público era majoritariamente de fora. “O pessoal perguntava se a gente enviava pra Minas, pro Sul, tinha gente da Índia, da China. A gente não tinha como enviar.”

Foi então que veio uma decisão estratégica importante: recomeçar. “A gente decidiu criar uma página só pra Patos e região. Hoje, quando eu abro os insights, praticamente só tem gente de Patos.” Esse foco local foi essencial para estruturar o negócio e preparar o próximo passo: sair de casa. Produzir dentro da própria residência começou a se tornar inviável. “A máquina soltava tanto pó que tinha pó no shampoo, no sabão. E eu engravidei.” A maternidade trouxe novas prioridades e reforçou a necessidade de mudança.

Mesmo com planos iniciais de construir um galpão próprio, tudo precisou ser reorganizado. A produção foi para um espaço alugado no bairro Monte Castelo, onde funciona a fábrica, mas os clientes continuavam reclamando da distância. “Teve uma mulher que disse: ‘eu nunca mais venho nesse fim de mundo, vocês têm que botar uma loja no centro’.” Laryssa ouviu, anotou os feedbacks e tomou uma decisão que ela define como um verdadeiro passo de fé. “Eu só tinha o valor do primeiro aluguel. Orei e disse: ‘Senhor, se for da tua vontade’. O dono aceitou um valor mais baixo e deu certo.”

O resultado veio rápido. “A gente fez um estoque com mais de 30 estantes e vendeu tudo em um mês.” Hoje, a loja trabalha principalmente com encomendas, devido à alta demanda e ao processo artesanal. “Toda a nossa fabricação é praticamente à mão. A gente tem só duas máquinas.” Entre os produtos, o grande destaque são as sapateiras. “O que mais sai são as sapateiras de entrada. É aquele móvel simples que resolve um problema que muita gente nem sabia que tinha.” Outro sucesso inesperado foram as bases para árvores de Natal, criadas a partir de uma necessidade pessoal e que venderam mais de cinquenta unidades em pouco tempo.

Ao falar de marketing, Laryssa mostrou clareza e experiência prática. “Quem não é visto não é lembrado. Não adianta viralizar se você não aparece sempre.” Ela contou que muitos anúncios da Camponaria são gravados em poucos minutos e que não se incomoda em ver ideias sendo copiadas. “Pode copiar, aqui tem ideia de sobra.” Para ela, mostrar bastidores é essencial. “Isso humaniza a marca. O cliente vê a estante sendo feita e pensa: ‘essa é a minha’.”

A conversa também passou por sua formação em jornalismo, experiências com TV, agência, design e os impactos emocionais da pandemia. Laryssa foi sincera ao relatar o trauma de produzir notícias em meio a perdas pessoais. “Eu perdi meu pai, minha tia e meu tio. Eu escrevia sobre morte o dia inteiro. Aquilo me danificou.” Esse processo a levou a um burnout e à decisão de mudar de área. Hoje, ela atua como assessora de mídia na Câmara Municipal, função que descreve com propriedade: “O assessor cuida da carreira da pessoa. Eu cuido da parte de mídia, planejamento, conteúdo, estratégia.”

Mesmo falando de inteligência artificial, ela manteve uma visão equilibrada. “A IA ajuda muito, mas o fator humano é indispensável.” Para Laryssa, tecnologia é ferramenta, não substituição total.

Ao final, a convidada fez questão de agradecer. Citou colaboradores, família, amigos e parceiros que ajudaram desde o início. “Empreender é isso. É botar estante em cima de um Fiat Uno, é fazer tudo, é não desistir.” E concluiu com uma reflexão que resumiu todo o episódio: “O objetivo de empreender é crescer e fazer as pessoas crescerem junto com você.”

A estreia da temporada 2026 do Pode Conversar foi marcada por uma história real, construída com trabalho, fé, erros, acertos e muita comunicação — exatamente como a trajetória de Laryssa Cristiny e da Camponaria.

Entrevista Completa Disponível em: